Para o bem ou para o mal, os acontecimentos trazem as marcas anteriores dos períodos germinativos. Cumpre, na busca da verdade, ir às causas e recuperar os fatos nas suas raízes. Na síntese de Guimarães Rosa: "Sei que tenho culpas em aberto. Mas quando foi que minha culpa começou?"
Perguntou-me um jornalista: "Onde o PT se perdeu?" Respondi que os erros não foram do PT, foram de pessoas. Milhares de filiados, de militantes e de homens e mulheres de bem que exercem mandatos e funções públicas em nome do partido com a maior decência e dignidade não podem ser culpadas e castigadas pelos desacertos de alguns. Mas há questões que permeiam todo o tecido partidário, quando nos perguntamos: por que permitimos que dirigentes partidários, formalmente agindo e falando em nosso nome, chegassem aonde chegaram sem o conhecimento da maioria? Nesse sentido, sim, a interrogação chega ao conjunto do partido. Parafraseando o verso de Chico Buarque: em que momento o nosso sangue errou de veia e se perdeu?
As coisas não acontecem de repente a não ser na refinada poesia de Vinícius de Moraes. Para o bem ou para o mal, os acontecimentos trazem as marcas anteriores dos períodos germinativos. Cumpre, na busca incessante da verdade, ir às causas e recuperar os fatos nas suas raízes. Na síntese genial de Guimarães Rosa: "Sei que tenho culpas em aberto. Mas quando foi que minha culpa começou?"
O PT errou quando, nos momentos inaugurais de sua formação, esquecemos toda a sabedoria cultural e simbólica que se construiu em torno do pecado original. Além da dimensão religiosa e teológica, o problema da culpa, da fragilidade humana, do mistério da iniqüidade e a atração pelos abismos são temas nucleares de obras clássicas, aprofundadas reflexões filosóficas e psicanalíticas. Nos dias fascinantes de construção do nosso partido, nós nos entusiasmamos e nos passamos um atestado permanente de pureza e honestidade. Esquecemos os limites e fraquezas presentes em todos os seres humanos e nas entidades e instituições que expressam as nossas virtudes e vícios, tão próximos que Chesterton dizia: "Todo vício é uma virtude enlouquecida".
Ao mesmo tempo em que nos apresentávamos como arautos da moralidade e defensores exclusivos dos pobres, vivíamos disputas internas que, infelizmente, se estendem aos nossos dias, pouco ou nada edificantes, marcada pela intolerância e busca do poder partidário. Deixamo-nos, ainda, dominar pela arrogância, como se fôssemos os novos detentores da verdade e do processo de libertação do povo brasileiro. Muitas vezes, fizemos tábula rasa de lutas, derrotas e conquistas anteriores a nós e julgamos os adversários com um rigor que não raro chegava ao limiar da calúnia e da difamação. Cedemos, e seguidas vezes, às tentações do maniqueísmo e do sectarismo, desconsiderando mediações e autocríticas.
O PT nasceu do encontro de diferentes tradições e movimentos unidos pelo ideal da ética e da justiça social, e o pluralismo que compôs o rico mosaico petista é um bem e uma força. Mas não aprofundamos as reflexões sobre as nossas convergências e diferenças na compreensão do Brasil e formulação de um projeto nacional. As secretarias e cursos de formação política, as publicações e debates internos com a sociedade se foram diluindo até o quase total esquecimento.
O abandono das reflexões teóricas e sobre os nossos procedimentos compartilhados levaram ao distanciamento dos dirigentes e das bases. Os encontros foram perdendo força. O poder foi se concentrando nas mãos de poucos. Práticas que sempre colocamos como fundamentais em nossas campanhas e programas - transparência nos gastos públicos, prestação de contas, participação popular - não foram efetivadas internamente. Não implantamos no partido o Orçamento Participativo.
Cometemos, assim, graves erros. Temos, todavia, um acúmulo notável. Acúmulo de pessoas, de experiências, de grandes realizações e conquistas, de valores. Podemos e devemos superar es