Oliver Stone sempre foi um diretor "antenado". Em Ao Sul da Fronteira, documentário que dirigiu e entra em cartaz no país nesta sexta-feira, ele adiciona uma visão mais apurada das contradições entre o capitalismo selvagem praticado pelos EUA e o socialismo emergente nos governos dos países sul-americanos, em especial o de Hugo Chávez, presidente da Venezuela. Stone argumenta, com precisão, que "a política do FMI, bancada pelo ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush usa a América Latina como cobaia para suas experiências". O primeiro a se levantar contra isso, segundo o longa, foi Chávez.
O diretor avalia as economias e políticas locais, destacando os heróis nacionais de seus países: Chávez, na Venezuela; Lula, no Brasil, e Evo Morales, na Bolívia. Na visão do diretor, a história é resultado daquilo que acontece agora. Contemporâneo, o filme chega até a Revolução Cubana, meio século atrás, na América Latina. Com o recurso da interposição de colagens de imagens, bem ao estilo, Michael Moore (Fahrenheit 11 de Setembro, Sicko - SOS Saúde), Stone ridiculariza a mídia norte-americana. Na primeira cena, uma apresentadora do canal Fox confunde cacau com coca. Um mix de clipes da televisão norte-americana mostra como é fácil a manipulação da informação.
O diretor mostra, sem censura, os males do imperialismo yankee e segue irônico nas críticas ao canal de TV mais conservador dos EUA, o FOX News, às vésperas do lançamento de seu próximo filme, Wall Street 2 – outra crítica ferina ao sistema capitalista –, a ser lançado ainda este ano. No filme, Chávez é uma figura polêmica e encantadora, divertido e espirituoso. Chama Bush de "burro" e "capeta", arrancando risos de uma plateia, e prega "uma revolução pacífica". Cita Simon Bolívar e propõe a "Revolução Bolivariana para a América Latina".
O filme acompanha o presidente da Venezuela e mostra o processo eleitoral daquele país, para provar que ele não é um ditador, destacando o seu lado humano. Stone mostra o local onde estava a casinha de palha em que Chávez nasceu e o retrato de sua avó. O tour de Stone continua pela América Latina, entrevistando seus governantes. Evo Morales recebe o diretor e se define "mais como um líder sindical do que presidente" de seu país.
Para Cristina Kirchner, presidente da Argentina, sobra o lado fútil da política. Stone conversa com ela e com o marido dela, o ex-presidente Néstor Kirchner.
Quando Lula aparece no filme, recebe um abraço afetuoso de Chávez, que o trata como a um irmão e ganha um abraço. Lula explica que, com a ascensão dos governos de centro-esquerda e esquerda na América Latina, pela primeira vez os pobres estão perto do poder. O também entrevista pensadores como Tariq Ali (que assina o roteiro com o economista Mark Weisbrot, crítico ferrenho do FMI).
Em Ao Sul da Fronteira, quando Barack Obama é eleito nos EUA, Chávez diz esperar "um novo Roosevelt" e a criação de uma nova política de bem-estar social (New Deal) para todos os continentes. Stone não filma nas entrelinhas e vai direto ao assunto: para ele, Chávez é a chama da democracia, enquanto para a ex-secretária de Estado norte-americana Condolezza Rice, é um ditador a ser combatido.