Oligarcas dominam a mídia e agora saem às compras, denuncia RSF
O Relatório Mídia cita que, no Brasil, é mais fácil destituir um presidente da República do que retirar de um político a sua licença de exploração de uma frequência de rádio ou TV
O Relatório Mídia cita que, no Brasil, é mais fácil destituir um presidente da República do que retirar de um político a sua licença de exploração de uma frequência de rádio ou TV
Por Redação, com ACS - de Paris e Rio de Janeiro
No documento intitulado Como os oligarcas matam a liberdade de informação, a Organização Não Governamental (ONG) Repórteres sem Fronteiras, com sede em Paris, iniciou a divulgação do Relatório Mídia: Os oligarcas vão às compras, que “descreve um panorama em que o jornalismo e a liberdade de informação enfrentam um muro invisível, composto pelo dinheiro e os conflitos de interesse”.
A concentração da mídia, no Brasil, é alvo de estudos por parte de RSF
O Brasil é citado no documento como o país em que é mais fácil destituir um presidente da República do que retirar de um político a sua licença de exploração de uma frequência de rádio ou TV. A concentração da mídia, no país, também é um ponto de destaque na pesquisa mundial.
Relatório Mídia-RSF
Editor-chefe do Correio do Brasil e ex-correspondente de Repórteres sem Fronteira, o jornalista Gilberto de Souza subscreve a conclusão a que chegaram os pesquisadores franceses.
Leia, em seguida, os principais trechos do artigo:
“Foi no JB (...) onde ouvi pela primeira vez que notícia era uma espécie de commodity e este entendimento era compartilhado pelas direções dos principais diários e canais de TV do país. No Correio do Brasil, posso garantir que notícia nunca foi e jamais será – enquanto eu for o editor-chefe – algum tipo de mercadoria. Notícia, para a Redação do CdB, é o retrato mais fiel da realidade que os jornalistas transmitem aos leitores, e esta não está à venda. Aqui, somente vendemos assinaturas, exemplares e espaços publicitários. Mas o que se percebe, infelizmente, é que a prática da mercantilização da notícia está disseminada, de forma letal para a democracia, nas principais redações do país.
“O dono dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, ainda na Era Vargas, deixou a lição – hoje aplicada à larga – aos donos da mídia conservadora. Ele disse a um dos redatores que, se quisesse ter opinião, deveria fundar o seu próprio jornal. Enquanto estivesse recebendo um salário daquela empresa, publicaria apenas o que o patrão mandasse. Nunca concordei com isso, uma das razões que me levou a fundar o Correio do Brasil e garantir, com a minha palavra, a liberdade de expressão de quem escrevesse para este diário, que completou 16 anos no dia 1º deste ano.(…)
“Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceu as eleições, em 2002, precisou escrever uma carta ao mercado, dizendo que garantia os contratos em vigor, por mais leoninos que fossem; não sairia por aí reestatizando as empresas vendidas a preços vis pela turma do FHC e, nas entrelinhas, manteria o fluxo das verbas publicitárias quase que integralmente destinado ao cartel da mídia. Ou dizia isso ou fariam da vida dele, como ocorreu, de fato, um inferno tamanho que, se bobeasse, nem tomaria posse. Depois que acalmou os ânimos na Wall Street, o operário entrou no Palácio do Planalto e seus inimigos – entre eles os donos dos meios de comunicação – tiveram um tempo para se organizar, afinal, viviam uma experiência inédita que sequer na ditadura militar houve qualquer semelhança. Era o povo no poder.
“Naquele momento, as grandes empresas de comunicação se viram ameaçadas, pois o ministro da Secretaria de Comunicação (Secom) era o ex-guerrilheiro Franklin Martins. O desespero se intensificou mais quando perceberam que jornais recém-nascidos, como o Correio do Brasil, passaram a mostrar que um novo modelo de jornalismo, independente e libertário, era possível em meio à selva conservadora. Desde sempre, o CdB fez o contraponto às manchetes do cartel midiático e, no caso do ‘mensalão’, por exemplo, mostrou que o processo, como um todo, tratou-se de mais uma armadilha contra o governo do presidente Lula. O que não passava do execrável caixa 2 foi transformado na imprensa golpista no mito da compra de votos dos parlamentares. Apesar do esperneio dos ‘jornalões’ e da TV, Lula venceu com folga a disputa por um segundo mandato. Esta foi, é claro, a gota d’água para as maiores fortunas do país, entre elas a da família Marinho, dona das Organizações Globo. Era preciso colocar ‘ordem no caos’ e unir forças para interromper o progresso da centro-esquerda. Deste entendimento nasceu o Instituto Millenium.
“Uma instituição que reúne os principais dirigentes dos meios de comunicação conservadores, com apoio do capital internacional ligado aos principais credores do país, exerce atualmente o mesmo papel que o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) cumpriu durante os Anos de Chumbo. Não foi de graça que o então professor Fernando Henrique Cardoso trabalhou para um e, hoje, atua como um guru do outro. O trabalho consiste em unificar a mensagem a ser passada para a opinião pública e manter o ataque diário às forças da esquerda no país. O resultado não apareceu antes das eleições porque o candidato tucano, Aécio Neves, foi vencido pela militância aguerrida e corajosa dos brasileiros progressistas, que ganharam corações e mentes dos eleitores durante o segundo turno. Mas a bala passou raspando. Animados com a pequena diferença, nas urnas, os jornais, rádios e canais de TV que rezam na cartilha do Millenium seguiram na batida, agora com uma Operação Lava Jato inteira para azucrinar a vida da presidenta que, embora reeleita, aninha-se em um silêncio obsequioso e mantém abertos os cofres da Secom para os mesmos veículos de comunicação que integram o conjunto de meios dispostos a lhe derrubar, a qualquer preço.
“Diante deste quadro, pode-se considerar que, sim, a grande imprensa é golpista. E mais: está organizada de forma a ampliar os ataques à medida que evolui o devido processo legal contra os malfeitos na Petrobras. Enquanto o PT sofre o pior desgaste de sua história, o governo ora empossado sangra, em meio a uma pancadaria midiática somente vista no tempo em que um tiro foi disparado no Palácio do Catete.
“Qualquer jornalista que disser isso, no rol dos meios de comunicação ligados ao Instituto Millenium, tem a porta da rua como serventia da casa”, conclui.
Tags:
Relacionados
Edições digital e impressa
Utilizamos cookies e outras tecnologias. Ao continuar navegando você concorda com nossa política de privacidade.