Rio de Janeiro, 13 de Agosto de 2026

Ocupações de terras improdutivas marcam o mês na Bahia

Segunda, 04 de Abril de 2011 às 10:41, por: CdB

Ações relembram impunidades e pressionam reforma agrária no estado

04/04/2011


Ana Maria Amorim

Salvador (BA)

 

O massacre de Eldorado dos Carajás completa quinze anos neste mês. A tragédia, marcada pelo assassinato de dezenove trabalhadores sem-terra, representa o descaso do Estado com a reforma agrária e a impunidade aos criminosos. Para marcar a data, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) intensifica as ações pela reforma agrária no país no chamado “Abril Vermelho”. Na Bahia, desde o primeiro dia do mês o movimento realiza ocupações de latifúndios, marchas e protestos.

No extremo sul do estado, duas fazendas foram ocupadas na madrugada de sábado (02). As terras, localizadas nos municípios de Alcobaça e Teixeira de Freitas, somam mais de dois mil hectares. Segundo o coordenador do MST no sul do estado, Evanildo Costa, as terras estão abandonadas pelos proprietários e em cada uma das fazendas há cerca de 200 famílias sem-terra acampadas na espera da desapropriação.

O extremo sul já contabilizava oito ocupações de terras nesta segunda-feira (04), envolvendo mais de duas mil famílias sem-terra. Dentre as terras ocupadas, está o conjunto Muqui, área de 6,8 mil hectares, de propriedade da multinacional Veracel Celulose. Segundo o MST, a multinacional, que trabalha com a monocultura de eucalipto, possui irregularidades, como o uso de terras devolutas do estado e crimes ambientais.

Na madrugada desta segunda-feira, 120 famílias ocuparam a fazenda Sapucaia, próxima ao município de Camacã, no sul da Bahia. As terras desta fazenda, conforme laudo do Incra, são consideradas improdutivas há mais de dois anos. Apesar disso, as terras ainda não foram usadas para a reforma agrária.

A segunda-feira também amanheceu em luta no nordeste do estado. A rodovia BR-110 foi bloqueada por uma marcha de 430 sem-terra em direção a Paulo Afonso. O coordenador do MST na região, Luís Ferreira, explica que o objetivo é conseguir uma reunião com a Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf) e com o Incra para que as terras excedentes da Chesf, que não são utilizadas pela companhia, sejam transformadas em assentamento para as 250 famílias que ocupam a área há 5 anos.

Três fazendas foram ocupadas no norte da Bahia por cerca de 800 famílias. Dentre elas, a fazenda Mariad, em Juazeiro, de propriedade do colombiano Juan Carlos de Abadia, líder de um cartel de tráfico de drogas e acusado de assassinar mais de 300 pessoas na América Latina. Também foi ocupada a fazenda Salitre, devido ao não cumprimento de acordo feito entre o MST e o estado para o assentamento de mil famílias sem-terra. “O acordo, que foi firmado em 2007, nunca saiu do papel e o Incra jamais reconheceu a área como assentamento”, afirma o sem-terra Jaílzon Santos.

Nas terras ocupadas na região da Chapada Diamantina também há marcas de proprietários envolvidos em crimes. Cerca de 600 famílias ocuparam três fazendas de Augusto César Requião, preso em 2010 a partir de uma operação da Polícia Federal pelo combate da exploração de caça-níqueis e jogos de azar. Requião foi acusado de crimes como formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.

Em Feira de Santana, mais de 400 famílias ocuparam uma área estadual, na beira do rio Jacuípe, na noite de sábado (02). Outros municípios do recôncavo também integram as ações dos trabalhadores sem-terra, como Sátiro Dias e São Sebastião do Passé. Além das terras, o MST reivindica que condições sejam oferecidas para que os trabalhadores rurais possam produzir em suas terras através da garantia de linhas de crédito, assistência técnica e apoio a comercialização dos produtos.

No oeste da Bahia, 160 famílias foram impedidas de ocupar a fazenda Casa Amarela, em Riachão das Neves. O coordenador do MST, Aquiles dos Santos, relata que seguranças dos proprietários esperavam os trabalhadores sem-terra. Santos afirma que a fazenda é uma área indicada ao Incra para reforma agrária desde 2009 e não possui nenhuma produção. As famílias formaram um acampamento ao lado das terras da fazenda.

Mais de 300 famílias sem-terra ocuparam fazendas também no sudoeste da Bahia, nas proximidades de Encruzilhada, Poções e Itapetinga, nesta segunda-feira. O coordenador do MST, Valter Rubens, diz que as ocupações foram feitas em fazendas improdutivas para pressionar o Estado a pôr a reforma agrária em sua agenda. Cerca de trinta ocupações foram realizadas neste primeiro final de semana de abril. As ações devem continuar durante todo este mês na Bahia, acompanhando a Jornada Nacional pela Reforma Agrária.

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