O radical Mahmoud Ahmadinejad, eleito presidente do Irã, enfrenta nesta segunda-feira a árdua tarefa de convencer o Ocidente de que não vai agravar a crise nuclear nem reverter as tímidas reformas sociais ocorridas nos últimos anos no país.
O ex-prefeito de Teerã, que na sexta-feira derrotou o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani no segundo turno da eleição presidencial, adotou uma posição conciliadora desde a votação, prometendo manter as negociações nucleares com a Europa e conduzir um governo moderado.
Mas seu passado como membro da radical Guarda Revolucionária e seus inflamados discursos sobre os princípios da Revolução Islâmica de 1979 levam muitos a acreditar que seu governo não será tão moderado quanto ele diz.
- Ele está partindo de um déficit de confiança. Não importa o que ele diga agora, as pessoas vão imaginar o pior, mesmo que o que ele esteja dizendo não seja muito diferente do que Rafsanjani diria se fosse eleito ou da posição do atual governo - disse um analista iraniano, que pediu anonimato.
Os Estados Unidos acusam o Irã de desenvolver armas nucleares. Teerã nega, afirmando que seu programa atômico é voltado exclusivamente para fins pacíficos. O governo já aceitou congelar algumas atividades nucleares enquanto negocia um acordo de longo prazo com a União Européia. As reuniões devem ser retomadas em agosto.
Funcionários europeus e norte-americanos se apressaram em manifestar sua preocupação com a vitória de Ahmadinejad. Para o secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, ele "não é amigo da democracia nem amigo da liberdade".
Analistas dizem que muitos governos europeus apostavam numa vitória de Rafsanjani, que se apresentava como o único político com experiência e influência para resolver a crise nuclear e melhorar as relações com Washington.
Mas as primeiras declarações de Ahmadinejad não diferem substancialmente das posições de Rafsanjani durante a campanha. Neste domingo, ele defendeu relações com qualquer país que não seja hostil ao Irã e prometeu manter as negociações nucleares com a UE, desde que em nome do "interesse nacional" iraniano.
A chancelaria do país pediu no domingo ao Ocidente que não pré-julgue Ahmadinejad, eleito com 62 por cento dos votos de domingo. Sua campanha foi feita com promessas de valorização dos valores islâmicos, combate à corrupção e distribuição das riquezas do petróleo.
- As negociações nucleares são parte das nossas macro-políticas, as quais decidimos por consenso. Mudar de presidente não muda isso - disse Hamid Reza Asefi, porta-voz da chancelaria do Irã.
No complexo sistema iraniano, um híbrido de democracia e teocracia, a palavra final sobre as questões de Estado cabe ao "líder supremo" da república, aiatolá Ali Khamenei, que tende a adotar posições linha-dura em questões diplomáticas.
Apesar de ser o primeiro não-clérigo eleito presidente em 24 anos, Ahmadinejad é considerado religiosamente mais conservador do que políticos importantes que são clérigos, como Rafsanjani ou Khatami. Ao contrário destes, não deve contestar as decisões de Khamenei.
Mas analistas iranianos não esperam que o novo governo adote uma atitude imediatamente hostil contra o Ocidente. "Ele provavelmente será bastante cauteloso na política externa no início e se concentrará mais na sua agenda doméstica de redistribuição de riqueza e justiça social", afirmou o analista Mahmoud Alinejad.