Bomba atinge vila tomada por rebeldes na Síria
Potências ocidentais avisaram a oposição síria para esperar um ataque contra as forças do presidente Bashar al-Assad dentro de alguns dias, segundo fontes que participaram de uma reunião entre enviados e a Coalizão Nacional Síria, de oposição, em Istambul.
– A oposição foi avisada em termos claros que uma ação para impedir futuro uso de armas química pelo regime Assad pode acontecer nos próximos dias, e eles ainda devem se preparar para as conversas de paz em Genebra – disse à agência inglesa de notícias Reuters uma das fontes presentes ao encontro de segunda-feira.
Na manhã desta terça-feira, o Exército dos EUA disse estar pronto para agir imediatamente caso o presidente Barack Obama ordene uma ação contra a Síria em resposta a um ataque com armas químicas, segundo o secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel, em entrevista à rede britânica de TV BBC.
– Nós movimentamos recursos para sermos capazes de cumprir com qualquer opção que o presidente deseje tomar – disse Hagel durante uma viagem a Brunei, de acordo com uma transcrição parcial fornecida pela BBC.
Questionado se os militares dos EUA estavam prontos para responder já, Hagel disse:
– Estamos prontos para ir.
A resposta do governo sírio de Bashar Al Assad não demorou. Segundo o ministro das Relações Exteriores da Síria, Walid Moualem, o país vai continuar avançando com seus esforços militares apesar de qualquer intervenção externa a seu território. Moualem acrescentou que qualquer ataque serviria ao interesse de grupos rebeldes ligados à Al Qaeda.
– O esforço militar (do governo) não vai ser interrompido ao redor de Damasco. Se o propósito é limitar as vitórias de nossas Forças Armadas, eles não serão bem-sucedidos – disse o chanceler Moualem, durante coletiva de imprensa, em Damasco.
'Nenhuma bota'
Um eventual ataque dos EUA e aliados contra a Síria provavelmente teria como objetivo dar uma lição ao presidente sírio, Bashar al-Assad, e também ao Irã, sobre os riscos de desafiar o Ocidente, mas não bastaria para definir os rumos da guerra civil. Autoridades dos EUA e da União Europeia dizem que um ataque curto e agressivo, possivelmente feito com mísseis de cruzeiro, seria a resposta preferida ao suposto ataque com armas químicas contra subúrbios rebeldes de Damasco, na semana passada, por ordem de Assad.
Se o ataque for adiante, o governo de Barack Obama terá de selecionar os alvos com extremo cuidado, pois seu objetivo será conter não só Assad como também o Irã, aliado da Síria envolvido em atritos com o Ocidente por causa do seu programa nuclear.
– O governo precisa decidir qual é seu objetivo: punição para mostrar que há um preço e para restabelecer uma dissuasão, ou mudar o equilíbrio de poder na Síria. Suspeito que irá inclinar-se para a primeira – disse à Reuters Dennis Ross, que foi assessor graduado da Casa Branca para questões do Oriente Médio até o final de 2011.
Em 2011, bombardeios da Otan contribuíram para definir os destinos da guerra civil na Líbia, ao destruir as defesas antiaéreas do regime de Muammar Gaddafi e permitir que rebeldes tomassem o poder. Mas, no caso da Síria, é improvável que Obama opte por algo semelhante. Autoridades dos EUA dizem que o Pentágono apresentou uma gama de planos possíveis à Casa Branca, e analistas acham que a margem de manobra é pequena.
– Acho que (o ataque) irá acontecer, mas será mínimo, suficiente apenas para mostrar ao mundo que fizemos alguma coisa. O objetivo mais amplo é não deixar os EUA envolvidos demais, e especialmente não permitir nenhuma bota (soldado) no terreno – disse Hayat Alvi, conferencista de estudos do Oriente Médio no Colégio de Guerra Naval dos EUA.
A oposição síria diz que centenas de pessoas morreram enquanto dormiam por causa de um ataque com gás realizado pelo governo contra subúrbios de Damasco dominados por rebeldes, na quarta-feira. Imagens das vítimas, inclusive crianças, rodaram o mundo na Internet, gerando indignação internacional. Mas, mesmo antes desse fato, os EUA e seus aliados já estavam reforçando sua presença militar na região. A Síria atribuiu o ataque químico a rebeldes, mas EUA, Grã-Bretanha e França dizem haver pouquíssimas dúvidas de que a responsabilidade recai sobre as forças governamentais.
Algumas autoridades ocidentais temem que, sem uma reação imediata, Assad se sentirá livre para voltar a usar armas químicas impunemente. Há um ano, Obama disse que o uso de armas químicas no conflito sírio seria um limite inaceitável para os EUA. Alguns temem que uma inação diante de um fato comprovado passe um sinal de que Obama também seria tolerante com relação a outros "limites intransponíveis" – incluindo o programa nuclear iraniano, que o Ocidente diz estar associado ao desenvolvimento de armas, o que Teerã nega.
Além disso, a falta de uma ação agressiva contra o regime sírio poderá levar Israel a agir por contra própria, atacando instalações nucleares iranianas e causando ainda mais instabilidade na região.
Alvos pontuais
A escolha dos alvos acarretaria riscos. O mais provável, dizem autoridades, seriam bombardeios a instalações de comando e controle de Assad, suas defesas aéreas e alguma parte do arsenal químico que, na avaliação dos especialistas, possa ser atacada sem o perigo de espalhar substâncias nocivas no ambiente. Outra preocupação é não causar a morte de nenhum técnico militar da Rússia, país que é o principal aliado de Assad no cenário internacional. Tal incidente poderia inflamar as já frágeis relações do Ocidente com Moscou.
Fontes de defesa dizem que os comandantes dos EUA desejam contar com uma força esmagadora e com uma robusta coalizão regional para conter a eventual retaliação síria. O chanceler turco, Ahmet Davutoglu, disse na terça-feira que o suposto ataque da quarta-feira foi "um crime contra a humanidade", que não pode ficar impune. Autoridades ocidentais, incluindo algumas diretamente envolvidas nas decisões, dizem que as sofisticadas defesas antiaéreas da Síria e as preocupações com o risco de vítimas entre aviadores aliados faz com que os mísseis de cruzeiro sejam a opção mais provável.
Nesse cenário, navios e aviões dos EUA disparariam mísseis sem entrar no espaço aéreo sírio. Os EUA já anunciaram que elevaram para quatro o número de porta-aviões que estão no Mediterrâneo e são capazes de transportar mísseis de cruzeiro. O mais poderoso navio dos EUA na região, o porta-aviões Harry S. Truman, deixou o Mediterrâneo em 18 de agosto, quando cruzou o canal de Suez para chegar ao mar Vermelho. Mas ele também pode estar em condições de atingir a Síria.
Fontes de defesa dizem que a Grã-Bretanha mantém há meses um submarino ofensivo no Mediterrâneo. Já a França acaba de reformar seu porta-aviões Charles de Gaulle, que em três dias teria condições de viajar de Toulon, seu porto atual, para o litoral da Síria.
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