Por Gerhard Grube 27/05/2011 às 22:37
Faz tempo meus pais compraram uma geladeira, "Frigidaire".
Importada dos Estados Unidos. No Brasil não se fabricava ainda geladeiras (que produziam o próprio gelo).
Esta geladeira existe até hoje. E ainda estava em uso até alguns anos atrás. Quebrou, e em vez de mandar consertar, compramos outra. Em parte não foi consertada, porque a borracha de vedação da porta estragou, e não se acha mais para vender.
Foi usada por mais de 50 anos! Algumas vezes teve que ser consertada, mas sempre funcionou. E continuaria funcionado até hoje, se não resolvêssemos comprar outra.
Está encostada num canto, o "elefante branco" (slogan de propaganda tempos atrás, para induzir as pessoas a comprarem uma geladeira mais moderna), sempre a lembrar-me dos bons tempos de criança.
É ruim para o mercado quando as coisas duram muito. As pessoas compram menos, e os produtores vendem menos. Por isso é incentivado o consumo, mesmo que seja só para jogar fora.
Preço mais acessível, facilitação do financiamento, e principalmente a intensa propaganda induzem as pessoas a comprar. Mesmo aquilo que não precisam. Coisas que são então rapidamente descartadas.
Quando um equipamento se torna obsoleto, precisa ser substituído.
Fica obsoleto quando o desempenho é considerado insatisfatório. Quando os defeitos são muito freqüentes. Ou quando a operação e/ou manutenção é demorada ou onerosa.
Os fuscas, barulhentos, beberrões de gasolina. Apesar de funcionarem bem, ficaram ultrapassados. Mas muitos estão rodando ainda, até hoje!
Os discos de vinil foram substituídos por fitas cassete e estas por CDs. As réguas de cálculo, por calculadoras eletrônicas, e então por computadores pessoais.
O critério é econômico e funcional, e nunca deveria ser diferente. Trocar sem necessidade é jogar dinheiro fora.
No entanto, o que movimenta a economia não é o aproveitar bem os produtos. E sim vender, não importa como sejam utilizados.
E somos induzidos a fazê-lo, principalmente pela propaganda, que não nos deixa em paz um minuto sequer. Temos que jogar fora o que ainda está funcionando e comprar outro.
E, mais que isso ainda, os produtos não são mais fabricados para durar. Como mostra o documentário (Obsolescência Programada): http://www.youtube.com/watch?v=QosF0b0i2f0
Na grande depressão na década de 1930, por falta de dinheiro, as pessoas utilizavam os produtos ao máximo, aproveitavam tudo até o fim. E consertavam o que podiam consertar. Mas isto só dificultava sair da depressão.
Na época Bernard London no seu folheto "Ending the Depression Through Planned Obsolescence" sugeriu que os produtos, todos eles, deveriam ser descartados obrigatoriamente, após determinado tempo. Jogados fora, no lixo.
Chamou isso de obsolescência planejada.
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/27/London_%281932%29_Ending_the_depression_through_planned_obsolescence.pdf
A idéia não foi aceita na ocasião.
Apesar de ser irracional a tal "obsolescência planejada", hoje em dia é assim com muitos produtos. Maioria tem validade pré-determinada, data de validade. E vão para o lixo compulsoriamente.
É a colocação em prática da idéia de Bernard London, na alegação de proteger o consumidor. Inquestionavelmente um bom argumento, ninguém se sente bem sabendo que poderia estar consumindo um produto estragado.
Só que os produtos são muito mais afetados em sua durabilidade pelo acondicionamento, impactos, contaminação, temperatura, luz, umidade e utilização, do que pelo simples decorrer do tempo. Em condições favoráveis não precisariam ser descartados.
Em outras palavras: Foi implantada a obsolescência planejada.
Mas também, na fase de projeto, a durabilidade dos produtos está sendo limitada, intencionalmente. Um exemplo são as lâmpadas incandescentes.
Pelo aprimoramento do processo de produção, as lâmpadas incandescentes vendidas no mercado chegaram a durar umas 2.500 horas.
Em surdina, os grandes fabricantes mundiais formaram um cartel. No qual determinaram que nenhum dos "associados" deve produzir lâmpadas incandescentes que durem mais que 1.000 horas. Inclusive multando os fabricantes que fazem isso!
Tanto faz, GE, Osram, Phillips, Silvania etc., não importa. Não duram mais que mil horas.
Obrigando as pessoas a trocar as lâmpadas mais freqüentemente. Quando então elas caem, se quebram e se machucam, sem necessidade.
E quantos acidentes não acontecem, quando queimam as lâmpadas dos semáforos?
Nos semáforos é diferente. Provavelmente seria o caos se as lâmpadas dos semáforos queimassem tanto quanto as que usamos em casa.
São lâmpadas incandescentes projetadas para resistir a impactos e temperatura. Duram 10.000 horas!!!
http://www.ricsen.com/ricsen/portal/lampadas.html
http://www.wimport.com.br/produto29.htm
Mas não são vendidas nos mercados, para as pessoas comuns.
A "Frigidaire" fabricava produtos extremamente duráveis. Segundo o mercado isto é um erro. Demora muito para vender outra geladeira para o mesmo consumidor. A empresa que faz isso está destinada a ir à falência.
Mas não, a "Frigidaire" está em pé, firme produzindo e vendendo geladeiras.
Só não sei se atualmente elas duram tanto quanto as fabricadas antigamente.