O jornalista Pedro Alexandre Sanches lançou nesta segunda-feira, em São Paulo, um estudo "social e afetivo" da obra do maior cantor popular brasileiro, Roberto Carlos Braga, de 63 anos.
Trata-se de Como Dois e Dois São Cinco - Roberto & Erasmo & Wanderléa (Editora Boitempo, 398 páginas). Repórter e crítico de música do jornal Folha de S. Paulo desde 1994, Sanches é autor também, pela mesma editora Boitempo, de Tropicalismo, Decadência Bonita do Samba, com análises das obras de Caetano Veloso, Jorge Ben Jor, Chico, Paulinho da Viola e Gil.
A história de Roberto se confunde com a pré-história do rock no Brasil, e Sanches inicia sua tese justamente nessa época, tempo da explosão de Marcianita, de Sérgio Murilo (1942-1992). No fim dos anos 50, o primeiro grande ídolo roqueiro foi Murilo, carioca do Catete, jovem advogado que, curiosamente, não negava o passado: ele gostava de bossa nova (em 1961, gravou Chega de Saudade e Desafinado, uma medida do enxerto que resultaria no pop rock nacional).
Estabelecendo relações sanguíneas entre música e política ("Roberto Carlos parecia desempenhar no plano musical papel parecido ao do confuso Jânio Quadros, que se bipartia entre condecorar o revolucionário pan-americano Che Guevara e reatar laços rompidos por JK com o FMI", escreve), Como Dois e Dois equilibra-se numa fórmula que vai do confessional ao analítico, do subjetivo ao pernóstico.
Sanches cobre o mundo de Roberto Carlos há anos. O suficiente, por exemplo, para fazer afirmações que soariam temerárias em outros analistas ¿ notou, por exemplo, que uma música recente do Rei, O Cadillac (2003), é bastante superior à sua antecedente mais badalada O Calhambeque.
O autor não escreve nem para o fã (seria quase incompreensível para este) nem faz um livro meramente de referência. Mistura os dois, acrescenta estilo e pontua com uma legítima admiração pelo objeto de seu estudo.