Rio de Janeiro, 20 de Setembro de 2026

O voyeur secundário

Segunda, 14 de Junho de 2004 às 06:11, por: CdB

Um dos maiores fascínios que o cinema exerce sobre o homem é exatamente a condição de voyeur em que o deixa. Quem paga para entrar na sala escura, paga para ver. Quem faz a fita a ser projetada na sala, a faz para ser vista e, de preferência, lembrada. A imortalidade é a maior razão para qualquer tipo de manifestação artística.
 
Alguns filmes lidaram com essa questão do voyeurismo, chegando a criar um ponto de interseção entre a platéia que olha através do personagem que, por sua vez, olha para outros personagens. Caso de Janela indiscreta, com James Stewart, que ainda causa uma perturbação na ordem do processo emissor-receptor, em determinado momento, ao surpreender o espectador colocando o protagonista olhando diretamente em direção a ele (afinal, quem paga para olhar, não espera ser olhado).
 
O recente O outro lado da rua, de Marcos Bernstein, em cartaz, leva o espectador novamente a ser o voyeur secundário, digamos assim. Regina (Fernanda Montenegro) é uma senhora que ajuda a polícia a resolver crimes. Através de sua janela, com seu binóculo, observa um crime acontecer em outra janela, do outro lado da rua. Nada demais na trama, ou nas atuações que se sucedem (pelo contrário, a direção de atores é péssima, como se averigua no delegado e no filho de Regina). 
 
Mas o longa-metragem de Bernstein não oferece nenhum tipo de atrativo, no que diz respeito a essa estranha subversão da forma convencional de se oferecer essa questão do voyeurismo. Só temos diluição e uma competência em orquestrar uma história boba. Há uma certa elegância nos personagens principais (inclusive no desfecho), mas pouca ousadia. O voyeur secundário vira primário e descobrimos logo que tudo não se passou de um pequeno artifício para se chegar a um lugar comum. Um quase-truque de roteiro.       

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