Por Gerald Thomas - Kafka é uma confusão. É todo Austro-Húngaro que é Tcheco e que é Eslavo e que é todo uma Praga. Praga mesmo! Praga de guetos a guetos povoados por judeus.
Por Gerald Thomas, de Nova Iorque:A época do livro é praticamente a mesma que vivemos um século depois Metamorfose A metamorfose de Gregor num verme ou estilizada por Gerald Thomas numa barata com bico de pena, para sua Trilogia kafkiana
Kafka é uma confusão. É todo Austro-Húngaro que é o todo Tcheco e que é todo Eslavo e que é todo uma Praga. Praga mesmo! Praga dessas que as pessoas rogam para si mesmas ou contra as outras, de guetos a guetos povoados por judeus miseravelmente tristes ou ciganos horrivelmente deprimidos, todos imersos numa “Mittle-Europa” e seus eternos e intermináveis conflitos étnicos onde um bairro fala alemão e execra o que fala turco que execra o que fala albanês e assim por diante.
No meio disso tudo, um magrelo chamado Franz Kafka.Era 1915, uma época quase igual a de agora. Claro, havia uma Primeira Grande Guerra Mundial em andamento, mas de resto, quase tudo igual. Hordas de refugiados pegando embarcações pra lá e pra cá. Hordas tentando marchar para fora das zonas de conflito e morrendo nos trilhos, morrendo nos campos, morrendo de fome e de ódio e morrendo porque eram de uma raça e não de outra, morrendo porque acreditavam num deus e não no outro. A coisa gira mas muda pouco.
Kafka escreveu A Metamorfose porque não aguentava mais o emprego como corretor de seguros e o horrendo ritual de ter que temer o chefe, o Chefe dos Chefes, os Chefes invisíveis e os absurdos horários estipulados por essas entidades. O céu eternamente cinza, as roupas cinzas, as peles mais que cinzas, tudo sempre frio e antipático e anti-semítico e a Europa naquele estado de que ninguém aguenta mais.
Kafka deu um BASTA ! “CHEGA! Não aguento mais a vida de humano, porra!”. Pronto. Foi isso. Ao contrario de “Cotidiano”, de Chico Buarque (Todo dia ela faz tudo sempre igual/ <e sacode as seis horas da manhã/Me sorri um sorriso pontual/E me beija com a boca de hortelã), o personagem de A Metamorfose teve uma über crise, mandou o mundo dos humanos a merda e transformou-se num repugnante verme.
Franz Kafka odiava seu pai, odiava sua vida, odiava a si próprio. Pode-se enxergar o “kafkianismo” em varias etapas da nossa sociedade quando ela se torna insuportável, sufocante, burocrática e aterrorizante. Talvez o personagem “Joseph K” de O Processo, em que ele é preso por crimes que não cometeu e não consegue provar sua inocência, morrendo no final, ou na mais que cruel Colonia Penal, em que o condenado sofre torturas na própria carne com maquinas gravando em sua pele os crimes que havia cometido.Kafka é o mais genial dos autor de todos os tempos. E não é difícil explicar por que.Dependendo em que idioma você o le, Kafka é o único autor que transcende a natureza humana até a mais baixa e nojenta condição de verme, logo na primeira pagina. Ele consegue isso em uma só pagina.Tive contato com A Metamorfose aos nove anos de idade, ou um pouco depois. Meu pai lia para mim, em alemão. Não é a toa que eu nunca mais consegui dormir desde então.
Décadas mais tarde, já sentado na Biblioteca do Museu Britanico, li-o em inglês, fiz comparações, sai puto (como sempre saio quando os tradutores traem os autores) e fui “kafkear lá pela Great Russell Street.Vinte anos para a frente e me deparo com a proposta de montar a minha Trilogia Kafka. Caramba! E agora? Bete Coelho, Daniela Thomas, Luiz Damasceno e a ‘troupe’ da Cia de Ópera Seca ali sentados diante do enorme desafio. Tres adaptações que sairiam do Brasil, viriam para Nova York e iriam terminar justamente em Viena.
Por que será que complicam tanto algo que, na verdade, é tão simples? Saco! Die Verwandlung nada mais é do que A Transformação, pombas. Por que então misturar Ovídio com leves insinuações Homéricas no meio? Pra quê? Pra que transformar um “verme” num besouro (ou barata), se verme é um termo alegórico que se aplica a humanos quando se sentem o ‘fim da picada’? Seja como for, o que ficou na história é que Gregor Samsa é uma barata. Melhor para mim, pois o pôster do espetáculo acabou sendo o corpo de uma barata tendo um bico de pena como cabeça. E isso mata a charada: a barata que escreve. Mas a sintaxe está errada pois perpetuei o erro e mantive a ideia da barata ou besouro quando o “BASTA, PORRA! NAO SOU MAIS UM DE VOCES !!!!!, o berro de independência de Gregor, está mesmo mais para um desses vermes que se arrastam e deixam uma gosma, do que para a ideia de barata.A Metamorfose é um romance miseravelmente triste em que o autor não se esconde atrás de nada.
É Kafka ali o tempo todo. E quando, quase no final do livro, o pai irritado de Gregor, joga uma maçã nele para afugentá-lo, a fruta gruda nas costas do bicho e apodrece nele, nas costas dele. Esse é um dos momentos mais tristes do livro e é nesse momento que conseguimos ouvir a tosse de Franz Kafka e enxergar o seu repúdio em estar vivo. Vivo e, no entanto, morto. Morto e, no entanto, não morto o suficiente para ser declarado um “falecido”.A Metamorfose, mais do que qualquer outro livro de Kafka, ou mais do que qualquer outro livro na história da literatura, é um testamento de que a única forma de comunicação entre seres humanos é através da extrema crueldade, da tortura mental e da dor física. A escrita de Kafka nos faz ranger os dentes, mesmo que se leia esse livro pela vigésima vez e no quinto idioma. E é também, além de tudo, o maior tratado de que nascemos e estamos aqui, mas não sabemos por quê. E a única forma de provarmos que estamos vivos é carimbando diariamente um livro que reza que a única forma de existência é através da desistência, é através da constatação de que os portões se fecham para nós, que nossas luzes se apagam e que aquela imensa dor que sentimos, essa puta dor, só tenderá a piorar a cada dia, pior e pior, e cada vez pior até que consigamos atingir a transformação final, ou seja, a Metamorfose.
Gerald Thomas, diretor e autor teatral. escritor, encenador polêmico, criador de uma estética elaborada a partir do uso diferenciado de cada um dos recursos teatrais e orientada pelo conceito de “ópera seca”. Renovou a cena brasileira nas décadas de 1980 e 1990. Dirigiu no ano passado, a peça musical Entredentes com o cantor Ney Latorraca, nos teatros do Sesc de São Paulo e Rio de Janeiro.Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.
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