Rio de Janeiro, 18 de Outubro de 2026

O verão sombrio de David Cameron

Sexta, 19 de Agosto de 2011 às 12:49, por: CdB

O verão sombrio de David CameronO verão de David Cameron começou no início de julho com as escutas telefônicas ilegais e está terminando este agosto com os piores distúrbios do pós-guerra. No meio disso, enfeitando tudo, um contínuo declive econômico que está projetando o fantasma de uma segunda recessão. O desgaste em somente 15 meses da coalizão conservadora-liberal democrata é notável. A pergunta é quanto tempo poderá resistir ao embate, agora que a economia do mundo desenvolvido parece em estado de implosão. A reportagem é de Marcelo Justo, direto de Londres.

Marcelo Justo - Correspondente da Carta Maior em Londres

O ano político britânico, que começa normalmente em setembro com o congresso anual dos sindicatos e dos principais partidos políticos, adiantou-se um mês em razão dos distúrbios e saques. O primeiro ministro teve que cortar abruptamente sus férias, a cúpula do governo, seus deputados e a oposição regressaram de seus guarda-sóis, esteiras e passeios, e a sociedade inteira mergulhou em um debate que vai marcar a agenda política dos próximos anos. Cameron começou com um endurecimento de seu discurso – “é uma questão puramente de delinquência” – que o deixou sem muita margem de manobra. Se esse era o único significado dos distúrbios, o governo não tinha muito o que fazer: cadeia e punho firme.

Esta semana, Cameron tentou uma conceitualização mais ampla falando de uma “sociedade exausta”, de uma “desintegração moral” e da “necessidade de revisar a política social”. Nem bem terminou de formular essas ideias e o aumento da taxa de desemprego o devolveu a uma realidade mais prosaica. As estatísticas mostravam 2 milhões e meio de desempregados, quase 8% da força de trabalho.

Os jovens entre 18 e 24 anos de idade são os mais afetados: um de cada cinco está sem trabalho. Não é o único problema desse setor, alma mater dos distúrbios. Devido à triplicação da matrícula universitária, que será aplicada a partir de 2012, a maioria dos estudantes que termina o secundário descartou a tradição do gap year – uma espécie de ano sabático para viajar antes de entrar na universidade – e está buscando um lugar na universidade ainda este ano. O resultado é que quase 190 mil postulantes estão disputando 29.409 lugares na universidade. Um estudo indica que os que não entrarem provavelmente não entrarão na universidade em 2012 por causa do aumento das matrículas. Com dezenas de milhares sem estudo, sem trabalho e sem perspectivas, pode-se descartar novos distúrbios?

A segunda frente da tormenta para Cameron é o escândalo das escutas telefônicas. A publicação, esta semana, da carta de Clive Goodman, o jornalista de “News of the World”, condenado em 2007 por fazer escutas ilegais, revela que essas escutas telefônicas ilegais eram discutidas abertamente nas reuniões presididas pelo então diretor da publicação dominical, Andy Coulson. A sorte de Coulson, que foi detido e posto em liberdade sob fiança no mês passado, está lançada. Mas a decisão de Cameron de contratá-lo como seu chefe de comunicação meses após deixar o cargo no “New of the World” está se convertendo na corda que pode terminar enforcando-o. Naquele momento, ter alguém tão vinculado ao grupo Murdoch pode ter parecido imprescindível para ganhar as eleições dos trabalhistas que estavam há 10 anos consecutivos no governo. Se a decisão era mais do que duvidosa do ponto de vista ético, agrava-se mais agora pela existência de sinais que colocam o “affaire Coulson” mais além do mero cálculo político.

Segundo o The Independent, uma ex “dominatrix”, Natalie Rowe, diretora de uma agência de prostituição,e amiga do ministro de Finanças, George Osborne, desde os anos 90, esteve entre os números de telefones violados pelo News of the World, em 2005, quando David Cameron postulava a direção do Partido Conservador. A publicação dominical seguia uma pista de consumo massivo de cocaína na campanha, cujo diretor era o próprio Osborne. Dois anos mais tarde, o ministro de Finanças foi o principal responsável por Cameron ter contratado Coulson. Não é preciso ser um amante de teorias da conspiração para suspeitar de uma possível conexão entre essa nomeação e a investigação do News of the World sobre a amizade de Natalie Rowe e Osborne.

O enigma pode ser solucionado nos próximos meses. Rowe está por publicar seu livro de memórias no qual, segundo a publicidade prévia, ficam comprometidos dois membros do gabinete de Cameron e dois ex-ministros conservadores. A dupla investigação da polícia sobre as escutas telefônicas e a violação de computadores, a que está a cargo do juiz Lord Brian Levenson sobre a relação entre os meios de comunicação e a política, e a que ocorre na comissão de interior do parlamento, estão trazendo à tona mais roupa suja.

O governo se reuniu mais de 30 vezes com diretores do grupo de Murdoch, depois das eleições de maio do ano passado: 5 vezes nas primeiras semanas. Osborne é o campeão: teve 16 encontros com o grupo Murdoch. O conteúdo dessas reuniões, quando ainda estava em jogo a aquisição por parte do grupo da totalidade do pacote acionário de BskyB, tem um potencial indiscutivelmente explosivo.

É possível que o governo sobreviva ao escândalo das escutas se não aparecer mais nada que comprometa diretamente a integridade de Cameron. Mais complicada é a situação econômica. O governo avançou contra o vento e a maré com um programa de drástico ajuste fiscal apesar de a economia estar saindo muito lentamente de uma profunda recessão com uma queda do PIB de 4,9% em 2009. Hoje a economia faz água por todos os lados. O consumo doméstico está estagnado, a inflação é de 4,4% enquanto que os salários só cresceram 2,6%, as exportações caíram e o PIB aumentou só 0,2% no último trimestre. Mas ainda falta o pior.

Como consequência do ajuste, cerca de 143 mil pessoas perderam seu trabalho no setor público nos últimos 12 meses, mas o cálculo oficial indica que, nos três anos e nove anos que restam de governo haverá algo entre 440 e 500 mil demissões adicionais. Com o furacão econômico que se avizinha no mundo desenvolvido, é fácil ver que os problemas deste verão são apenas o começo.

Tradução: Katarina Peixoto


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