Ganhei o apelido de "Velhinho de Taubaté", em alusão à personagem de Luís Fernando Veríssimo. Eu seria aquele que vai morrer sendo o último brasileiro a acreditar em tudo o que o governo diz. Resolvi encarar o apelido e expor os motivos de minha crença no governo Lula. E advertir sobre um estelionato em curso.
Amigos e amigas meus e minhas me deram o carinhoso ápodo de "Velhinho de Taubaté", em alusão à senhora de idade avançada, personagem das crônicas de Luís Fernando Veríssimo, ao tempo do governo de Figueiredo. A boa senhora acreditava piamente em tudo o que o governo então dizia. E eu seria o "velhinho de Taubaté" em relação ao governo Lula, aquele que vai morrer sendo o último brasileiro a acreditar em tudo o que o governo diz.
Em primeiro lugar, fiquei honrado pelo apelido, pois ser comparado a um personagem de Veríssimo filho é tão importante quanto ser comparado a um de Veríssimo pai, e lembrei-me de que em priscas eras já fui chamado de Capitão Rodrigo, não sei se pelo sotaque ou pelo bigode.
Em segundo lugar resolvi encará-lo, o apelido, e expor aqui os motivos de minha crença no governo, ainda que seja uma crendice muito pouco crendeira.
Considero o governo Lula parte - parte apenas, ainda que estratégica - de uma coisa maior na vida brasileira que hoje tem duas faces complementares; a primeira chama-se de "luta de classes" e a segunda "vida republicana". Se olho para a face da luta de classes, o que vejo, para além de minhas crenças ilusões e desilusões pessoais? Onde estão aqueles a quem o saudoso professor Florestan Fernandes chamava de "os de baixo"? Estão acorrendo ao PSOL? Não.
Ao PSOL acorre o funcionalismo público desiludido e ferido em sua auto-estima pela reforma da previdência, particularmente os mais abonados ou melhor remediados que nem eu. Estarão mesmo, quem sabe, acorrendo à esquerda do PT? Decididamente não. Para a esquerda do PT acorre a militância ou a intelectualidade desiludida pela manutenção da política econômica e por esta fidelidade meio canina do presidente Lula em relação a Palocci.
"Os de baixo", mantendo a expressão, estão mesmo junto ao Presidente Lula e com ele provavelmente ficarão até a próxima eleição. Ao mesmo tempo, se olho para outros lados, o que vejo? "Os de cima", particularmente os rentistas, mais os seus apensos, estão armando um gigantesco estelionato eleitoral (mais um!) que, se o governo do PT desabar antes ou nas próximas eleições, vai durar pelo menos oito anos, senão mais.
Em que consiste esse estelionato eleitoral? Consiste em comprometer a outra face, a republicana, convencendo a população, através da mídia com eles comprometida, de que a única forma de combater a corrupção, num discurso que, como eu já disse antes, é feito para agradar ao condomínio da classe média, é encolher mais ainda o Estado. E assim, se "todos são iguais", mais vale votar em quem defende o Estado menor e faz sua intervenção aparentemente ser menor.
Um estelionato em três direções
Este estelionato tem três direções. A primeira é em relação ao passado. Pois estas afirmativas obscurecem a lembrança do que foi a farândula das privatizações ao tempo do governo de FHC, a compra de votos para a emenda da reeleição. De quebra, ouvem-se vozes agora clamando que a imprensa foi muito leniente em relação ao PT no passado. Ora, basta ler as Cartas Ácidas, livro do titular desta coluna na Carta Maior, Bernardo Kucinski, para se dar conta do contrário. Já há um volume editado e sei que o segundo está a caminho num futuro próximo ou distante, mas está.
A segunda direção do estelionato é em relação ao futuro. Um Estado ainda menor do que o deixado por FHC é simplesmente mais barato de comprar e tem mais dificuldade de fiscalizar e de fiscalizar-se também. Portanto o que os defensores desta visão em verdade patrocinam termina sendo, mesmo que não o façam conscientemente, uma facilitação das ope