Rio de Janeiro, 20 de Agosto de 2026

"O trabalho ingrato das agências de notação"

Quarta, 20 de Abril de 2011 às 02:35, por: CdB

Pela primeira vez, a Standard & Poor's rebaixou, na segunda-feira (18), a perspectiva de evolução de sua nota sobre a dívida dos Estados Unidos.

Uma advertência que não surpreende o suíço Cedric Tille. Para o economista, professor do Instituto IHEID de Genebra, as agências de notação nfazem apenas a sua obrigação.

A agência Standard & Poor's declarou na segunda-feira (18) que a dívida de longo prazo dos EUA mantém a melhor nota (AAA), mas a perspectiva da nota a longo prazo foi revista de "estável" para "negativa".
 
Em outras palavras, a agência pode diminuir sua avaliação dos títulos do governo americano nos próximos dois anos.
 
swissinfo.ch: Qual será o impacto da decisão da Standard & Poor's?
 
Cédric Tille: Essa decisão destaca os desafios de longo prazo que os americanos estão enfrentando. Mas isso não é novidade. Já sabemos há algum tempo que as aposentadorias e a saúde pública vão pesar muito no orçamento dos Estados Unidos. Não é de hoje que o Fundo Monetário Internacional (FMI) vem chamando a atenção para esse problema.
 
Em um contexto bastante disfuncional, a Standard & Poor's constata que, se as autoridades não conseguirem pegar o touro pelos chifres em alguns anos, haverá a longo prazo efeitos negativos. Mas não estamos numa situação de risco de colapso em dois anos.
 
Sobre o impacto dessa decisão, que não é uma surpresa, quando um país sofre uma mudança na classificação, as taxas de juros de sua dívida podem aumentar. Os investidores começam a olhar o país com receio e pensam duas vezes antes de investir nele.
 
Neste caso, o mercado de ações caiu cerca de 2% na segunda-feira, o que está longe de ser dramático. Mas as taxas de juros de curto prazo da dívida americana não foram aumentadas.
 
De fato, os investidores - nervosos - se refugiam nos braços do Tio Sam, como sempre nestes casos. Como não há risco de inadimplência a curto prazo, a dívida dos EUA continua sendo muito atraente. O problema pode surgir para um horizonte de vinte a trinta anos. Isso explica que os rendimentos da dívida americana a longuíssimo prazo aumentaram um pouco.
 
swissinfo.ch: Mas esse aviso pode causar preocupação para países como França ou Grã-Bretanha, também muito endividados, que podem ser os próximos a receber um cartão amarelo...
 
CT: É verdade. As agências de notação já manifestaram reservas sobre a situação a longo prazo de um país como a França. Mas o fato de apontarem o dedo aos Estados Unidos não muda a situação. Ninguém está aprendendo de repente que a Standard & Poor's pode ser severa.

O problema das agências de notação é o conflito de interesses, julga Cedric Tille. (swissinfo)

swissinfo.ch: As agências de classificação de risco foram criticadas por não terem previsto a crise de 2008. O aviso da Standard & Poor's também pode ser uma maneira de reforçar a imagem?
 
TB: Essa decisão é baseada nos fundamentos da dívida pública dos EUA. Eu não acho que isso seja uma simples questão de relações públicas. As agências de classificação de risco foram criticadas durante a crise, mas também durante a crise asiática e as crises anteriores. Em cada crise é a mesma história.
 
Se elas não dizem nada, são acusadas de não terem visto o problema aparecer, se soam o alarme, são acusadas de criar o problema ou agravá-lo. O trabalho delas é um pouco ingrato.
 
Nada explica porquê a Standard & Poor's lança o alerta agora e não seis meses atrás. Passamos por um triz do fechamento do governo americano e agora o Congresso vai, sem dúvida, debater até o último minuto se eleva o teto da dívida. É a preocupação a mais que deve ter incitado a Standard & Poor's a dar o passo.
 
swissinfo.ch: Mas para que serve fundamentalmente uma agência de rating?
 
CT: No mercado existem iniciados, pessoas do métier que detêm as informações e sabem o que estão fazendo, e o restante dos investidores que não sabem onde colocar seus pés e que podem ser enganados. O papel da agência de rating é transmitir informações aos investidores desinformados. Se eu não sou um especialista do banco UBS, por exemplo, eu não vou analisar as contas do UBS. Mas a nota sobre o UBS vai me dar uma ideia do valor desta empresa.
 
swissinfo.ch: Dito isto, nem tudo são rosas ...
 
CT: A classificação de títulos simples como as obrigações não cria problema. Não foi o caso das classificações dos derivativos. Antes da crise, havia derivativos classificados de triplo A [as empresas, sociedades ou produtos financeiros mais saudáveis] que na realidade não eram.
 
Esses produtos foram criados para passar no limite. Na primeira notícia ruim a nota desaparecia, quando na verdade é preciso muito mais para abaixar um triplo A. Com o enfraquecimento do mercado imobiliário dos Estados Unidos no início da crise, os derivativos triplo A se tornaram super arriscados.
 
swissinfo.ch: As agências de classificação de crédito mudaram a maneira delas de trabalhar depois dessa última crise?
 
CT: Não que eu saiba.

swissinfo.ch: Na sua opinião, deve-se mudar alguma coisa no sistema?
 
CT: O problema das agências de notação é o conflito de interesses. As agências são pagas pelos emitentes, por aqueles que elas deveriam supervisionar. Se eu sou um agente econômico que pretende emitir uma obrigação no mercado e se quero uma nota sobre essa obrigação, cabe a mim pagar a agência de notação. Desse jeito eu acabo conseguindo uma boa nota. Um pouco como se o professor fosse pago pelos seus alunos: eles têm todas as chances de tirar notas muito boas. Mas este problema não é novo e não há nenhuma solução rápida.
 
swissinfo.ch: No auge da crise, alguns países como a França anunciaram sua intenção de reformar o campo das agências de rating. O resultado, na prática?
 
CT: Não aconteceu nada. Mas este não é o maior problema. Os efeitos de alavancagem altos demais, as instituições financeiras "too big to fail", esses tipos de problema são muito mais importantes.

Pierre-Francois Besson, swissinfo.ch
Adaptação: Fernando Hirschy

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