Um estudo publicado recentemente na Inglaterra afirmou que a carne brasileira para exportação é produzida através de trabalho escravo, sugerindo que o baixo preço do produto no exterior é devido à economia gerada pelo não pagamento das obrigações trabalhistas. O estudo credibilidade duvidosa, uma vez que seu objetivo é fomentar barreiras comerciais através da desqualificação das exportações brasileiras. O argumento de proteção aos direitos humanos é usado apenas como escudo para os interesses econômicos e o trabalho não vai a fundo na discussão do problema, limitando-se no necessário para gerar um factóide. Também não se incomoda com o fato de que grandes multinacionais utilizaram trabalho escravo no Brasil durante a ditadura ou que outras já comercializaram com produtores flagrados com trabalho escravo nos dias de hoje. Além disso, o estudo inglês não traz nada de novo e faz um apanhado do que a imprensa brasileira já está veiculando há tempos a respeito dos negócios dos empresários flagrados cometendo esse crime.
Entre 1995, quando começaram as libertações sistemáticas de trabalhadores pelo governo federal, e o fim do primeiro semestre de 2005, 1340 propriedades haviam sido fiscalizadas - e nem todas tinham a pecuária como sua base. Ou seja, muito pouco se comparado com o total de propriedades no país. De acordo com dados do Ministério da Agricultura e da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, em 2004, 8,35 milhões de toneladas de carne bovina foram exportadas em um total de 2,419 bilhões de dólares.
A prática já foi detectada em quase todos os estados da União, mas está concentrado na região de fronteira agrícola amazônica. A superexploração de mão-de-obra não-especializada e o trabalho escravo são adotados por empresas e fazendas para diminuir custos de produção, aumentando assim a competitividade - sem que seja necessária a redução nos lucros. Mas essa minoria de empresários criminosos não é suficiente para gerar uma diminuição completa do valor de uma mercadoria para a exportação. O lucro fica com fazendeiros e intermediários e raramente é repassado ao importador no exterior ou ao consumidor final no Brasil. Portanto, o valor para o comprador inglês é o mesmo se ele compra de um frigorífico que ganha com crimes trabalhistas ou de um frigorífico que não se beneficia direta ou indiretamente de escravos.
Contudo, as críticas que vêm sendo feitas contra esse estudo no Brasil chegam a ponto de ignorar a ocorrência de trabalho escravo em importantes cadeias produtivas nacionais. Que usamos e também combatemos o trabalho escravo, isso é notório. Em 1995, o governo federal brasileiro - por intermédio de um pronunciamento do então presidente da República Fernando Henrique Cardoso - assumiu a existência do problema perante o país e a Organização Internacional do Trabalho. Com isso, tornou-se uma das primeiras nações do mundo a reconhecer oficialmente a escravidão contemporânea. Nesse ano foram criados os grupos móveis de fiscalização, coordenados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, que verificam denúncias e constatadas irregularidades libertam trabalhadores e garantem o pagamento de seus direitos. Em março de 2003, o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, lançou o Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo e compôs a Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae). Um ano depois, o Brasil reconheceu perante a Organização das Nações Unidas a existência de pelo menos 25 mil pessoas reduzidas anualmente à condição de escravos no país.
As operações de libertação de trabalhadores do governo federal demonstram que quem escraviza no Brasil não são proprietários desinformados, escondidos em propriedades atrasadas e arcaicas. Pelo contrário, são grandes latifundiários, que produzem com alta tecnologia para o grande mercado consumidor interno ou para o mercado internacional. E essa pequena fração de grandes propriedades rurais monocultoras está