Rio de Janeiro, 16 de Agosto de 2026

O terremoto (político) peruano passado o primeiro turno

Quarta, 13 de Abril de 2011 às 09:35, por: CdB

Apesar do crescimento a taxas chinesas, a maioria dos peruanos se sente fora do festejo

 

13/04/2011

 

Pablo Stefanoni

Pagina Siete

 

Os resultados das eleições peruanas são, ainda que estivessem entre as possibilidades, um terremoto político.

São a prova de que apesar do “milagre econômico”, a maioria da população elegeu opções “antissistêmicas”, sem que esse termo tenha em si conotações positivas.

Antecedente Fujimori

Em 1990, os peruanos votaram em outro antissistêmico, o chinês Alberto Fujimori, que derrotou ao neoliberal Mario Vargas Llosa e impôs, ele mesmo, o neoliberalismo, ao que agregou generosas doses de corrupção, abusos de todo tipo, repressão e autogolpe, tudo temperado com políticas populistas que hoje fazem que, entre setores populares, muitos recordem com carinho do “japonês”.

Em 2006 ganhou “o sistema”. Alan Garcia voltou ao poder mais gordo e menos anti-imperialista do que quando governou nos anos 80 aos 35 anos e convocava a declarar a moratória da dívida externa.

Apesar do crescimento a taxas chinesas, a maioria dos peruanos se sente fora do festejo e agora deixaram de fora do segundo turno a um ex-presidente (o Cholo Alejandro Toledo e um ex-ministro de economia liberal, Pedro Kuczynski); e votaram em um ex-militar nacionalista e na filha de Fujimori (preso por toda a sorte de maus tratos aos direitos humanos e pelos escândalos de corrupção vinculados a Montesinos), que bem poderia ter parafraseado uma consigna peronista dos anos 70 e propor: “Keiko ao governo, o Chinês ao poder”. Para piorar, seu irmão – Kenji – foi o deputado mais votado.

Duas alternativas à vista

Assim se dá a situação paradoxal na qual as classes médias e altas deverão escolher entre duas alternativas que refletem a crise, ao que parece sem retorno, do sistema político peruano.

Por um lado, um nacionalista radical que hoje mudou de Hugo Chávez para Luiz Inácio Lula da Silva, abandonou as grosserias antissemitas, homofóbicas e assustadoras dos etnocaceristas [doutrina de nacionalismo étnico que evoca tanto a identidade inca pré-hispânica como o nacionalismo peruano do ex-presidente e herói na Guerra do Pacífico, Andrés Avelino Cáceres], e se veste com pele de cordeiro social democrata.

Seu perfil, contudo, parece mais próximo ao do equatoriano Lucio Gutiérrez (que chegou ao poder com os indígenas e foi tirado pela multidão nas ruas) do que ao de Hugo Chávez.

Do outro lado, uma jovem de 35 anos que vem como o avanço do obscuro exército da pior nível: de fato, sua campanha foi desenhada por seu pai... de dentro da prisão.

Se a burguesia limenha [da capital Lima] se consolava com que tanto Toledo como Kuczynski derrotariam Humala no segundo turno (como Alan em 2006), agora o cenário é diferente.

Frente a Keiko, Ollanta até aparece como o candidato “sério”. E entre um possível mal por conhecer e uma muito mal conhecida...

Dizem, contudo, que Ollanta Humala segue assustando a burguesia limenh e o establishment. Afinal, estes setores estiveram bastante cômodos com a ditadura do Chinês.

Alguns “liberais” já adiantaram seu voto, como o frívolo jornalista e escritor Jaime Bayly, que para frear um possível ditador votou na filha de um nefasto ditador muito real para os peruanos.

O voto do novelista Mario Vargas Llosa dizendo que é eleger entre o câncer e a Aids é uma grosseria feia e vulgar para um prêmio Nobel.

Ademais, se surgem “antissistêmicos” é porque seus amigos liberais repartiram a torta dando a sensação de que as porções não eram equitativas.

 

Tradução: Vinicius Mansur

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