Eu não me lembro bem quando, nem mesmo me lembro bem onde. Acho que foi no livro Porto de histórias: mistérios e crepúsculos de Porto Alegre. Mas pode ter sido em outro. E nesta correria de redação e vida fragmentada estou agora sem acesso ao livro para verificar. Sendo assim, começo pedindo desculpas pela possível imprecisão, logo eu, que um dia o próprio Moacyr Scliar, motivo central desta crônica, elogiou pelo rigor na informação...
Mas a frase é inesquecível. Ou o conteúdo dela, pelo menos. Porque no ritmo das imprecisões pode ser que eu me engane de novo e troque alguma palavra. Mas o sentido será bem claro, porque ele fala de uma madalena, aquela sedutora broa que o Proust, ao tê-la se desmanchando na boca com o chá de alguma tarde, teve como ponto de partida de sua busca do tempo sem volta. No caso presente, é uma madalena metálica, e no lugar da farinha que se desfaz de encontro à língua salivada, há rangidos metálicos e um sacudir por vezes frenético de molas e peças desencontradas - as do nosso próprio corpo rangendo pelos trilhos.
É que nesse tal de livro o Scliar escreveu um capítulo sobre o bonde. Sabem, leitores e leitoras, o bonde, hoje mais chamado VLT - Veículo Leve sobre Trilhos - nas cidades que civilizadamente ainda o usam. Só que aqueles dos tempos de antanho podiam ser chamados de VMPQT - Veículos Mais Pesados do que Quase Tudo. Mas o Scliar escreveu dizendo que os leitores deveriam ouvir o suspiro que saíra do peito dele, ao escrever o título. E daí veio a frase imortal: "porque o bonde não era um meio de transporte, era um estilo de vida", ou algo assim.
Mais de dez anos nos separam: enquanto me falta ainda mês e meio para eu entrar na fila bancária dos "idosos", neste 23 de março o Moacyr completa 70 anos de imorredoura vida literária e de médico sanitarista renomado, além de cidadão consciente de suas responsabilidades privadas e públicas. Mas mesmo assim, com esses dez anos e pico de diferença, eu e ele estamos no mesmo bonde.
De fato, o bonde era um estilo de vida. Para começar, o bonde era uma divisa, uma fronteira, entre o estado de piá (guri, criança) e o de rapaz. Porque para se dar essa passagem, além de fumar e beber escondido, além de trocar a calça curta pela comprida, o suspensório pela cinta, além de mais contar histórias de aventuras sexuais do que vive-las, era absolutamente necessário subir e descer do bonde andando.
Hoje é difícil entender a temeridade do gesto. Porque quase não há mais aquelas pedras lisas dos calçamentos antigos, e que às vezes, mesmo se cobertas por asfalto ou macadame(!), afloravam à superfície nos buracos abertos pela chuva. Porque numa época em que todo mundo vive correndo, come correndo, e até ama correndo, submerge aquela sensação de quase vôo que era a de correr ao lado do bonde, e no momento exato dar o salto de vida ou morte para cair triunfalmente sobre o estribo enquanto a mão se firmava no balaústre de madeira. Sim, porque pior do que morrer nesta aventura seria estatelar-se no chão, ralando calças, cotovelos, ou até a testa, e depois ter de dar explicações em casa e fora dela sobre o que de fato acontecera.
Era esse o "bonde" que o Scliar evocava, além de outras passagens que ele representava: na rua escura, ver aquela luz amarelada que se avizinhava; na fria madrugada, às duas da manhã, ou às quatro, ouvir o ranger metálico das rodas do Bonde Duque, o único que trafegava a essa hora e que era chamado de "bonde fantasma".
Como Erico Verissimo, Mário Quintana, Dionélyo Machado, Caio Fernando Abreu, Luís Fernando Veríssimo e outros artistas da pena ou de outros materiais, Moacyr Scliar é dos escritores que definiu e que faz parte do perfil da capital dos gaúchos. Dizer que Moacyr trouxe para esse painel variegado um olhar a partir do Bonfim, bairro preferencial dos imigrantes judeus e seus descendentes imediatos, é verdade, mas é pouco. É certo que Moacyr trouxe a peculiaridade desse olhar para o