Duas décadas depois do fim da ditadura no Uruguai, voltamos para assistir à posse de Tabaré Vázquez, com o povo em festa e a América Latina esperançosa de que seu processo de integração retome o avanço de forma definitiva. Eles nos obrigam a olhar para o Sul do Sul, a virar o mapa de cabeça para baixo.
Fomos condicionados a olhar para o norte e para o leste. Tivemos que aceitar - dolorosamente - a existência do Uruguai em 16 de julho de 1950, quando perdemos para eles - contra todas as expectativas - a final da Copa do Mundo, feita para que o Brasil fosse campeão. Foi uma data traumática no aparentemente interminável período entre essa data e 1958, quando finalmente fomos campeões, na Suécia. Até ali, o Uruguai foi uma referência traumática para nós.
A outra referência estava na expressão "casar no Uruguai". Não havia divórcio no Brasil e personagens do jet-set brasileiro viajavam ao "paisinho" ao sul do Brasil para divorciar-se, casar de novo e aproveitar para passar a lua-de-mel em Punta del Este e jogar nos cassinos, proibidos no Brasil.
A isso se limitava o Uruguai para nós, até a chegada dos Tupamaros e suas ações espetaculares, simultaneamente à oposição militar à ditadura entre nós. A partir dali, nos fomos dando conta dos destinos comuns dos nossos países, achatados pelas ditaduras do terror que engolfou o conjunto da região, de forma indistinta.
Mas, como disse Eduardo Galeano: "Os uruguaios temos certa tendência a crer que nosso país existe, embora o mundo não o perceba". E no entanto, este "paisinho" do Sul do Sul - recorda ele - "aboliu os castigos corporais nas escolas 120 anos antes da Grã-Bretanha". O Uruguai adotou a jornada de trabalho de oito horas um ano antes dos Estados Unidos e da França. Tiveram lei do divórcio setenta anos antes dos espanhóis e voto feminino quatorze anos antes dos franceses.
No entanto, diz ele, quando a ditadura militar impôs seu terror sobre o país, provocando o maior exílio em proporção à população de todo o mundo e o liberalismo econômico posterior fragilizou o Uruguai, se instaurou a maior crise da história do país. "O país depende das vendas de carnes, couros, lãs e arroz para o exterior, mas o campo está nas mãos de poucos". O país tem cinco vezes mais terra do que a Holanda e cinco vezes menos habitantes, mais terra cultivável do que o Japão e uma população quarenta vezes menos.
No entanto, os uruguaios seguiram emigrando por não encontrar lugar para trabalhar. "Uma população escassa e envelhecida: poucas crianças nascem, nas ruas vêem-se mais cadeiras de rodas do que carrinhos de nenê. Quando essas poucas crianças crescem, o país as expulsa."
No entanto, o Uruguai foi o único país do mundo que derrotou as privatizações em consulta popular, em um plebiscito, no final de 1992, em que 72% dos uruguaios decidiram que os serviços essenciais continuariam sendo públicos. O país de Eduardo Galeano, de Mario Benedetti, dos tupamaros, da Frente Ampla, de Líber Seregni triunfa hoje - último dia dos governos de direita neste país. Há 20 vínhamos aqui para comemorar o fim da ditadura.
Duas décadas depois, voltamos para assistir à posse de Tabaré Vázquez, com o povo uruguaio em festa e a América Latina esperançosa de que seu processo de integração retome seu avanço de forma definitiva. Eles nos obrigam a olhar para o Sul do Sul, a virar o mapa de cabeça para baixo. Com gosto.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História".