Rio de Janeiro, 24 de Janeiro de 2026

O socialismo privatizado

Por Bernardo Kucinski - No começo deste mês, a assembléia do kibutz Gaash, em Israel, deliberou por ampla margem de votos extinguir a igualdade de pagamentos, principal traço da vida coletiva do kibutz. É o ocaso da mais radical forma coletiva de organização social. (Leia Mais)

Quarta, 16 de Maio de 2007 às 13:21, por: CdB

Gaash é uma colônia coletiva situada na região mais rica de Israel, entre Telavive e Haifa, às margens do Mediterrâneo. Ali moram cerca de 300 pessoas, inclusive brasileiros que emigraram nos anos 50, atraídos não só pela idéia de um Estado Nacional judeu, depois do holocausto, mas principalmente pela idéia de uma vida totalmente coletiva, uma sociedade socialista. Na forma kibutz, todos ganham o mesmo pagamento, uma espécie de mesada base, que varia apenas com o número de filhos. Não pagam aluguel e nem serviços de saúde. Há um rodízio entre todos na execução dos serviços, como cozinha e limpeza. As crianças recebem educação em tempo integral, e nos primórdios do kibutz moravam em coletivos próprios, as "casas das crianças". Não há propriedade privada, exceto para os objetos pessoais.

No começo deste mês, a assembléia do kibutz Gaash, que se reúne todas as sextas-feiras, deliberou por ampla margem de votos extinguir a igualdade de pagamentos, principal traço da vida coletiva do kibutz, instituindo valores diferentes conforme os ganhos de cada indivíduo no mercado (para os que trabalham fora) ou o equivalente aos que trabalham internamente (nota 1). Algumas semanas antes, o mais emblemático de todos os kibutzim (plural de kibutz), Degânia, havia também abolido a igualdade de ganhos e as ordens de serviço, permitindo aos seus membros procurar empregos que quiserem, e lhes dando a propriedade das casas em que moram. Em todo o país, um kibutz após o outro está abandonando o princípio da igualdade de ganhos a adotando o que vem sendo chamado de "privatização". Mas foi a decisão de Degânia que causou o maior impacto.

Porque Degânia criou a forma kibutz. Foi o primeiro kibutz fundado em Israel, ainda em 1910, por imigrantes russos fugidos da revolução fracassada de 1905 e imbuídos de idéias socialistas. A decisão de Degânia é um marco na história do movimento kibutziano, que, apesar de crise que atravessou, conta com 280 colônias coletivas em todo o país, algumas de grande importância social e econômica. Uma nova demonstração da dificuldade de sobrevivência de uma formação socialista num meio predominantemente capitalista. A mesma maldição que acabou com os sonhos dos socialistas utópicos e manietou o movimento cooperativista.

É o fim do socialismo kibutziano, reclamam os veteranos. "O encanto do Kibutz acabou. A tendência é que virem comunidades de residentes, cada um levando sua própria vida", diz um brasileiro veterano do Kibutz Gat, que fica mais ao Sul, perto do deserto do Neguev. Ele é favorável às mudanças, que vê como inevitáveis. "É a única forma de mantermos dentro do kibutz os jovens, fascinados pelos altos salários e benfeitorias que o capitalismo israeli oferece, e com isso garantirmos a sobrevivência do próprio Kibutz", diz outro brasileiro, o 'Negro', como é apelidado Isaac Rubinstein, que vive em Gaash. Com esse argumento, Negro conseguiu convencer alguns veteranos a apoiarem a mudança, o que foi decisivo na assembléia.

Além de alguns poucos que se opõem às mudanças por motivos ideológicos, votaram contra apenas famílias que nem eram suficientemente antigas para já terem ganhado suas casas definitivas, e já não tão jovens para iniciarem uma nova vida fora do kibutz. Em geral, famílias na faixa dos 40 anos, com dois ou três filhos. São os que saem perdendo com a abolição da igualdade de renda.

As privatizações começaram timidamente há alguns anos, depois do movimento kibutziano mergulhar numa profunda crise econômica, e agora estão se acelerando. Muitos kibutzim haviam assumido dívidas com bancos que não puderam pagar quando os juros saltaram para a estratosfera, fenômeno coincidente com o da crise da dívida externa do Brasil e provocado pelos mesmos fatores. Quando a direita assumiu o poder em Israel e decidiu acabar com o apoio à agricultura, tudo piorou, já que o Kibutz havia se formado essencialmente como uma unidade de produção agrícola. Alguns kibutzim foram virtualmente

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