Por Mário Augusto Jakobskind - Em matéria de crise hídrica, algo que historicamente afeta o Nordeste já há muitas décadas, o tema ganhou dimensão bem maior porque agora atinge em cheio o Sudeste brasileiro, onde se concentra a maioria da população.
Domingo, 22 de Fevereiro de 2015 às 12:50, por: CdB
Ao terminar o Carnaval continua o silêncio, como se não houvesse o risco de falta d´água para a metrópole paulistana
Agora que o ano de 2015 está começando, como sempre acontece depois do Carnaval, o país vai seguindo em frente, meio aos trancos e barrancos. Na área política, Eduardo Cunha apronta ao presidir a Câmara dos Deputados. Já fez ameaças, do tipo que só depois de passar por cima do seu cadáver entrará em pauta para discussão e votação questões como a regulação da mídia. Cunha com isso ganha pontos e espaço na mídia hegemônica. E assim caminha a Câmara dos Deputados. Em matéria de crise hídrica, algo que historicamente afeta o Nordeste já há muitas décadas, o tema ganhou dimensão bem maior porque agora atinge em cheio o Sudeste brasileiro, onde se concentra a maioria da população.
Pois bem, o tema vem sendo tratado de forma superficial e totalmente manipulado. Várias mídias estão tentando demonstrar que o maior vilão da história é o consumidor individual. Iniciam até campanhas para reduzir os minutos do banho e alguns canais de televisão chegam a apresentar crianças escovando os dentes utilizando copo em vez de abrir a torneira.
Só que se for feita essa economia, o principal passa ao léu, até porque o consumo doméstico representa 10% do total geral. Já as indústrias e o agronegócio consomem mais de 70%.
E no meio de tudo isso, tanto a mídia hegemônica conservadora como a Agência Nacional de Água (ANA) silenciam sobre um sério problema envolvendo exatamente a água.
As mineradoras, sobretudo em Minas Gerais, gastam por hora milhões de litros de água para a retirada do produto. Em vez de construir ferrovias para o escoamento do minério a ser exportado, elas usam água, secando rios que abastecem cidades. Fazem isso para economizar. Ou seja, o minério é levado pela água para os pontos de saída para o exterior. Daí o gasto exorbitante que é escondido da população.
Um silêncio vergonhoso, ao mesmo tempo em que se apresentam diariamente as tais fórmulas engenhosas para o consumidor individual poupar. É o esquema gênero engana que eu gosto, porque se for mesmo reduzido os minutos do banho ou da escovação de dentes, a poupança de água não resolverá o problema. Mas se as mineradoras não agirem como querem aí sim a poupança será muito significativa. Porque o gasto de um milhão de litros das mineradoras pesa na balança.
Soma-se tudo isso a devastação na Floresta Amazônica e a incompetência de governos ao longo de várias décadas e pode-se entender, sem subterfúgios e manipulações, o motivo pelo qual ocorre a grave crise hídrica na região Sudeste.
Depois de ouvir uma série de denúncias sobre o papel nefasto das mineradoras no gasto de água, o Senador João Capiberibe, do PSB do Amapá, se comprometeu a apresentar projeto no sentido de fiscalizar com maior rigor e até mesmo a permissão de funcionamento das empresas mineradoras que estão arrasando o meio ambiente.
A ANA, que deveria fiscalizar as mineradoras torna-se inoperante, deixando essas empresas, geralmente multinacionais, fazerem o que bem entendem em detrimento da maioria da população. Há denúncias inclusive de que a ANA até apoia tal esbulho.
Por mais boa vontade que tenha Capiberibe ou algum outro senador, projeto desta envergadura só será aprovado com apoio e mobilização popular. E para que isso aconteça é necessário que o povo brasileiro seja informado, o que não vem acontecendo.
Indústria armamentista agradece
Já na área internacional, o mundo inteiro acompanha os trágicos acontecimentos protagonizados pelo chamado Estado Islâmico (EI). A indústria armamentista, por sinal, agradece os responsáveis pelas ações de barbárie, pois desta forma consegue escoar ainda mais a sua produção.
Na Líbia, vários trabalhadores egípcios foram queimados vivos, segundo informou o próprio EI. O mundo fica indignado, com justa razão, mas esquece que a Líbia atual é produto dos bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Depois disso, a Líbia, então o país com o maior padrão de vida da região, como era conhecida, na prática acabou, sendo dominada por várias milícias, algumas delas aliadas da própria OTAN.
Novela argentina
E na Argentina segue a novela relacionada com a morte do Procurador Alberto Nisman. Toda hora surgem novas versões sobre a sua morte. O jornal Clarin segue com todas as suas baterias voltadas contra o governo Cristina Kirchner, deixando claro que o principal objetivo é incriminar a Presidenta.
Não é de hoje que o caso AMIA ganha contornos muito polêmicos. Segundo informa o jornalista argentino Santiago O'Donnell, autor de “Argenleaks” e “Politleaks”, ao analisar os telegramas do site Wikleaks ele garantiu que Alberto Nisman recebia da embaixada dos Estados Unidos instrução no sentido de acusar o Irã pelo atentado que em 1994 provocou 85 mortes.
Em entrevista a uma rádio, O’Donnell disse que “os telegramas demonstram que (Nisman) não atuou com independência da embaixada dos Estados Unidos. Ele antecipava (à representação diplomática) o que ia fazer e a embaixada dizia o que tinha que fazer".
Segundo a Agência Télam o jornalista acrescentou que a embaixada ainda por cima dizia que (Nisman) “não podia investigar a pista síria nem a conexão local porque isso desviaria a atenção, e dava como culpados os iranianos”.
Vale acompanhar o que vem por aí na Argentina e ficar atento em relação ao noticiário dos jornalões e telejornalões. Por que em matéria de golpes políticos, a fórmula passa por veículos do gênero Clarin.
Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , será lançado dia 17, no Rio de Janeiro.Direto da Redação é um fórum de debates, do qual participam jornalistas colunistas de opiniões diferentes, dentro do espírito de democracia plural, editado, sem censura, pelo jornalista Rui Martins.
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