O Rappa esbanja carisma. Não só no Rio, como se pode averiguar ouvindo Instinto Coletivo, tirado de um show em Porto Alegre, há cinco anos. As apresentações na Fundição Progresso são um bom exemplo da receptividade do público. No meio de um longo feriado, casa lotada. Outro fator curioso: um público heterogêneo, de diversas idades e classes, que se misturavam com enorme facilidade.
O show da turnê do último disco do quarteto, O Silêncio Q Precede o Esporro, começou em tom de homenagem. Um dos trechos do disco, no qual uma gravação com o falecido poeta Wally Salomão é misturada a uma base de instrumental épico, é ouvido e misturado com uma fumaça que cobre o palco enquanto a banda entra.
O carisma do Rappa deve-se em grande parte a seu vocalista, Marcelo Falcão. A banda já foi mais carismática com o ex-baterista Marcelo Yuka, que fazia a "linha editorial" do grupo e discursava com grande entusiasmo para esse heterogêneo público. Com Falcão a coisa é diferente. O cantor lembrou a situação política caótica do Estado nomeando os responsáveis pelo 'esporro'. Mas parou por aí. E começava a apresentação com a música de referências bíblicas O Salto, do Silêncio. Ficou bom no palco. Já Biterrusso Champagne ficou com resultado bem abaixo do conhecido no disco. Convenhamos, grava-se no estúdio trinta canais de som, para reproduzir os 30 instrumentos ou arranjos com sete músicos no palco...
Outro grande momento do show foi Maneiras, o instrumental ficou até melhor do que no disco. Só uma coisa poderia ter sido evitada: a música Rodo Cotidiano, que foi tocada duas vezes, tirando o lugar de outras músicas como O Homem amarelo ou Todo camburão tem um pouco de navio negreiro (do primeiro disco do Rappa, que não teve nenhuma música incluída no repertório).
Ao término foi confirmada a competência da banda, o carisma junto ao público e a ótima produção do show, valendo uma menção especial para a iluminação, impecável.