O recente seqüestro do repórter da Rede Globo e seu auxiliar, por um comando que se auto-atribuiu a condição de ser parte do PCC, despertou uma rede enorme de manifestações levantando, entre os vários aspectos, os seguintes:
1. O seqüestro marcaria a abertura de uma "frente política" por parte do PCC, uma vez que apresentaram na mensagem lida reivindicações de diagnósticos oficiais sobre o sistema presidiário brasileiro, além de se valerem de táticas de grupos de oposição à ditadura militar, ou de uso por parte de grupos políticos de diferentes opções, genericamente reunidos sob a sigla de "terrorismo".
2. A discussão sobre se a atitude da Rede Globo foi correta ou não, ao colocar no ar, e imediatamente, o vídeo que recebeu.
3. Novamente, veio ao ar a discussão sobre uma suposta ligação entre o PCC e o PT.
O seqüestro merece ampla repulsa, em primeiro lugar. Mostra o nível de desorganização a que chegou a política de segurança pública no Estado de S. Paulo. É bom pensar que antes do ato ocorrer, alguém (ou alguéns) concebeu-o, planejou-o, deu instruções, ordens e foi obedecido. Ou seja, o seqüestro tornou-se uma "cadeia de linguagem" que pareceu, a um grupo de pessoas pelo menos, algo consistente, coerente, e eficaz como método de conseguir um objetivo. Deixou de ser algo tresloucado, uma ação vista como imprevisível, ou feita in extremis. Para usar uma expressão coerente com algumas das idéias dominantes hoje, a tática deste seqüestro "entrou no mercado", em termos de cálculo de investimento, custo e benefício. Esta é a lógica deste tipo de seqüestro. Ao invés de buscar sua equivalência genérica, que só vai produzir simulacros comparativos, a atitude consistente diante do fato é buscar a sua especificidade. Organizações como a que praticou o seqüestro, seja o PCC, alguma facção, franquia, ou grupo concorrente que se arroga o nome, não está fazendo política no sentido estrito do termo. Porque o PCC ou equivalente são as organizações criminosas que melhor exprimem os tempos devastados pelo neoliberalismo. A sua política não é - apesar das aparências - derrubar o governo, ou socorrer, mesmo que com métodos eticamente discutíveis, como no caso brasileiro dos seqüestros dos embaixadores à época da ditadura militar (e o "discutíveis", sublinho, foi escolhido a dedo), companheiros em situações-limite de tortura, ameaça de morte, ou condenados pelo combate a um sistema iníquo, ilegal, discriminatório e arbitrário. O objetivo final do PCC é garantir um mercado, antes de mais nada, e poderes sobre seus "súditos" que garantam a consolidação e a expansão deste mercado, e nisso conta com a ajuda de uma legislação anacrônica que impede a descriminalização de drogas que são a esteira do crime organizado e da corrupção dentro do aparelho policial e de segurança, sem o que ele não teria espaço para funcionar. Neste sentido o PCC se assemelha mais com bancos que, em época de capitalismo selvagem, sonegam quase um bilhão de reais da previdência, do que com as organizações políticas da época da ditadura, ainda que haja analogia - e apenas analogia - entre alguns métodos empregados.
Sobre o segundo e terceiro itens, a maior incógnita, e até agora não explicada, ficou por conta da atitude do Secretário de Segurança Pública de S. Paulo, Saulo Abreu, que não só foi contra, mas (parece, pelo noticiário) tentou impedir a divulgação do vídeo pela Rede Globo. Isto, tanto quanto o seqüestro em si, colocou de fato em risco a vida do repórter Guilherme Portanova.
Do ponto de vista político, alguma coisa que pode ameaçar de fato a atual liderança do presidente nas pesquisas, seria um cadáver sangrento que se pudesse grudar no PT, ou no governo, através de "massagens midiáticas". Para que isso ocorra, não é necessária nenhuma conspiração daquelas antigas, com gente reunida à socapa em porões ou sótãos, ou restaurantes finos. Basta um bando de tresloucados de um lado, e um outro bando de manipuladores de informação do
Rio de Janeiro, 01 de Abril de 2026
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