O futuro do PT ficou no passado, e só no passado, ou seja, em sua origem e princípios, o partido poderá recuperar a alma. Se os filiados estiverem convencidos disso, Raul Pont vencerá, no pleito de domingo (9), o candidato do Campo Majoritário. Do contrário, o PT corre o risco de se converter em alguma coisa semelhante ao PTB de hoje, que se transformou em um insulto à memória de Vargas, de Jango e de Alberto Pasqualini.
Os homens podem mudar de idéias, sem mudar de nome. Mas os partidos, ao mudarem de idéias, passam a ser grotescas caricaturas do que foram em seu nascimento. É o risco que corre o PT, em sua adesão decidida à chamada economia de mercado. Que o PSDB optasse pelo caminho do neoliberalismo, tudo bem. Afinal, é de Lenine a frase definitiva, a de que os social-democratas se converteriam, como se converteram, com sua opção reformista, em fiéis gerentes da burguesia. O PT não tinha esse direito, mas seus dirigentes resolveram agir "pragmaticamente", como alguns costumam dizer. Como as idéias eram coisa de intelectuais, o primeiro cuidado do governo petista foi o de os isolar.
Na visão dos observadores de fora, não filiados ao partido, os petistas têm agora a oportunidade de recuperar o ânimo de grande parte dos militantes, mas não de todos. Os fatos conhecidos, com o acréscimo de uma política econômica controvertida, golpearam profundamente o pacto de esperança da maioria dos brasileiros no Partido dos Trabalhadores.
Mas a vitória de Pont trará, se ela se confirmar, o agravamento das contradições entre o PT e o governo. Provavelmente, se não houver sábia articulação moderadora, o presidente Lula insistirá em sua arriscada política de alianças com a direita, a fim de criar condições para a reeleição daqui a um ano, e a nova direção do PT não a avalizará. Nesse caso, ou o governo deixará o PT, ou o PT acabará deixando o governo. Isso pode parecer impossível - mas não deixa de ser provável.
Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.