Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

O segundo ano

Por Mauro Santayana - O governo Lula pode decepcionar os sonhadores, mas está seguindo rigorosamente o manual técnico de governar. (Leia Mais)

Domingo, 18 de Janeiro de 2004 às 10:22, por: CdB

Ao promover a reforma ministerial, o presidente Lula se prepara para o segundo ano de governo, que é, em qualquer administração, o mais importante trecho do mandato. Entende-se, e se entende mais ainda, quando é a primeira vez que um grupo assume o centro do poder, que o primeiro ano seja de tenteios. Uma coisa é planejar com os dados estatísticos, outra é governar com os homens. Essa é uma razão essencial do conflito entre os que se incumbem das negociações políticas e os que se dedicam a administrar as finanças públicas. Os técnicos, quando têm boas intenções, procuram agir com a razão matemática, e, sendo uma ciência exata com relação às coisas materiais, ela é sempre falha, quando se trata das razões políticas.

O chamado núcleo duro do governo talvez seja, na realidade, bem mais flexível. Dele é que partiu a idéia, bem antes da eleição, de que o PT devia desviar-se para o centro, e se tornar mais uma sigla a valer-se da indecisa ideologia social-democrata, que serviu para justificar o governo entreguista de Fernando Henrique, sob a plumagem tucana, e para sustentar o discurso esquerdista de Brizola, por detrás da rosa vermelha. Alguém, mais malicioso, poderia dizer que a democracia pura e simples, ao adjetivar-se, pode servir para tudo. Como sabemos, todo adjetivo é redutor: o social aí pode ser visto em muitas acepções.

Qualquer governo só é possível no centro, embora o centro seja móvel, oscilando ao oscilarem as circunstâncias, mais para a direita ou mais para a esquerda do espectro ideológico. Nesse sentido, o governo Lula pode decepcionar os sonhadores, mas está seguindo rigorosamente o manual técnico de governar.

É assim que se entende a escolha dos ministros do PMDB. Para o governo, quanto menos conhecedor da pasta for o ministro, melhor: da ação técnica poderão desincumbir-se quadros de confiança do presidente. Como em certos ministérios, como o das Comunicações e o da Previdência, a técnica é, em si mesma, condução política, o governo pode sentir-se seguro no cumprimento de seu próprio projeto. A nomeação do Sr. Ziller para a Anatel é um sinal dessa intenção.

Outro êxito do governo está em robustecer-se internamente a partir de atos de política externa. A nova posição brasileira diante de Washington - tão diferente da exercida pelo seu antecessor - vem sendo aplaudida não só pelos brasileiros, mas, também, por nossos vizinhos. O movimento de autonomia coincide com um momento de fragilidade dos Estados Unidos, sob uma administração considerada, pelos observadores mais atentos, como a mais desastrada dos últimos cem anos. O ex-vice-presidente e candidato derrotado por Bush em uma eleição suspeitíssima, Al Gore, iniciou uma cruzada de oposição a Bush que tem surpreendido pela sua virulência. Gore acusa o grupo texano de desdenhar a opinião pública mundial em dois problemas cruciais: a invasão do Iraque e a poluição do mundo. Segundo Gore, o governo norte-americano usa a técnica orweliana: dá a um projeto de devastação florestal o nome de "Saúde Florestal" e denomina "Céus Limpos" o uso de combustíveis fósseis poluentes.

Ao mesmo tempo, o governo mexicano apela para a Corte Internacional de Haia, a fim de impedir a execução de cidadãos mexicanos nos Estados Unidos, por não ter a polícia permitido aos detentos, quando da prisão, solicitar a assistência consular de seu país. Esse impedimento contraria a Convenção de Viena, e a Corte Internacional suspendeu a execução, que já estava marcada, de três mexicanos. Por outro lado, o livro de Paul O'Neil, em que Bush e os seus auxiliares mais próximos são pintados em tintas grotescas, leva Bush a enfrentar uma reeleição que, se fosse hoje, ainda seria fácil, mas só tende a ficar mais problemática com os meses a vir.
Isso explica o recuo dos norte-americanos em algumas questões, e fortalece a posição de Lula. Até mesmo a prisão, em São Paulo, do obsceno piloto, trouxe pontos positivos para o governo.

O olho do Big Brother
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