Temos hoje possibilidade de abrir uma agenda para tratar da convivência digna do homem com o semi-árido nordestino. Uma ótima oportunidade de o presidente Lula passar para a história do país como o presidente que voltou seu olhar para essa região.
No primeiro mandato do presidente Lula, a transposição do rio São Francisco passou por três momentos singulares: o embargo da obra, causado por ação civil pública impetrada pelo Ministério Público da Bahia; a greve de fome do bispo de Barra (BA), Dom Luís Flávio Cappio, que veio a promover novas rodadas de negociações junto ao governo federal em Brasília, e o silêncio quase que total sobre o projeto, demonstrado pelos candidatos à presidência da república na campanha de 2006.
O embargo judicial foi estabelecido em conseqüência dos danos ambientais que seriam causados pelo projeto ao longo de toda a bacia do rio, e sua liminar, que perdura até a presente data, encontra-se no Supremo Tribunal Federal, no aguardo de parecer do ministro Sepúlveda Pertence.
O ato extremado do bispo de Barra, o qual já tivemos a oportunidade de classificar neste meio de comunicação como o santo jejum do bispo, resultou numa aproximação entre os movimentos sociais e o governo federal para a discussão das questões do São Francisco, agora sob nova ótica: a de dizer 'não' à transposição, de dizer 'sim' à revitalização de sua bacia e, a mais significativa delas, de se abrir uma agenda para tratar de assuntos relacionados à convivência digna do homem com o semi-árido nordestino. Essa última questão, aliás, nunca foi prioridade dos governos, e muito menos na primeira gestão do presidente Lula.
Atualmente, essas discussões estão interrompidas temporariamente, em virtude da realização recente das eleições.
Diante dos três assuntos pautados nas discussões com o governo federal, merece destaque aquele relacionado com a revitalização da bacia do rio São Francisco. Inicialmente, gostaríamos de dizer que não acreditamos no projeto de revitalização na forma em que ele está sendo apresentado à sociedade pelo Ministério do Meio Ambiente. Na nossa visão faltam-lhe os avais da ciência e da técnica e, por que não dizer, do sentimento e da capacidade para realizá-lo, tão necessários em projetos dessas dimensões. Portanto, cremos que não existe clareza nas ações técnicas e, muito menos, na gestão ambiental quando o assunto é o Velho Chico.
Recentemente, fomos conhecer de perto o projeto Manuelzão, em Minas Gerais, que visa, entre outras ações, a revitalização da bacia do rio das Velhas, importante afluente do rio São Francisco. Ficamos surpresos e até impressionados com o que vimos, principalmente com a forma magistral de como as ações do projeto estão sendo implementadas. Elas são geridas através de visão macro e sistêmica, dando-se prioridade à mobilização social através da atuação do comitê e dos sub-comitês de toda a bacia hidrográfica do Velhas - bem como da participação de empresas, centro de pesquisas e universidades. No projeto atua-se localmente, mas com uma visão global, considerando o planeta como um todo.
Esta visão inovadora de Apolo Lisboa, coordenador do projeto Manuelzão, convenceu o governo do Estado de Minas Gerais de que seria possível a realização das metas previstas para o ano 2010: navegar, nadar e pescar nas águas do rio das Velhas. Tanto é assim que, em 2004, o governador Aécio Neves, conforme nota editada na imprensa local, assumiu compromisso com a meta de nadar com Apolo Lisboa em suas águas.
Essa atitude do governo de Minas está arraigada em todo um simbolismo e sentimento de crença nas ações que estão sendo implementadas no projeto. De nossa parte sugerimos que, para a revitalização do rio São Francisco, no segundo mandato do presidente Lula, as autoridades comecem por adotar, como padrão, o modelo do Manuelzão, evitando as conotações político-partidárias que o projeto possa vir a ter. No tocante ao silêncio demonstrado pelos candidatos à