Rio de Janeiro, 13 de Maio de 2026

O Rei Roberto e os plebeus

Quarta, 20 de Novembro de 2002 às 11:54, por: CdB

O Rei Roberto e os plebeus O primeiro show que assisti, ao vivo, de Roberto Carlos, foi há uns 11 anos, em Minas. Ele cantou, acreditem, no pátio de uma oficina de uma concessionária Ford. Foi para vips. Mas havia camarote para os plebeus. Eram as janelas, lajes e sacadas das casas vizinhas, de onde se via, bem ou mal, o Rei ao longe. Foi uma experiência inédita pra mim - e creio que para muitos que se acotovelavam para ver um cara em cima do palco a 500 metros de distância. Digo inesquecível não só pelo show - acho que o repertório ainda é o mesmo catando semana passada no Aterro do Flamengo. Foi, sem dúvida, diferente. Para começar, os vips se assustaram com a algazarra feita pelos empuleirados nas lajes quando Roberto entrou no palco. Comemoramos mais que aquelas palmas miúdas da platéia que desembousou, em valores de hoje, uns 150. E, para variar, o Rei deu tchaw para nossa galera. Mais gritaria. Até hoje, no entanto, reflito sobre aquele bye e o sorrisinho dele. Não sei se foi um "oi, olá gente" ou "vão se danar seus pobres filhos de uma puta manca, porque quero cantar aqui com a minha orquestra!" Até hoje lembro daquela noite. Fiquei na casa do Juarez, um metalúrgico que conheci só quando ouvi seu grito de susto ao chegar e ver aquela multidão: Depois vocês falam que aqui em casa não tem festa! Como eu, muitos eram penetras, gente da rua que foi entrando e a patroa dele, coração de mãe, foi deixando. Um vizinho seu foi astuto. Cobrou umas pratas. Arrependeu-se. Após pagar, teve gente que se sentiu no direito de abrir a geladeira, usar o banheiro e mijar fora da privada. Bem, voltando ao presente, mais uma vez o Rei cantou pra mim. Nem tive que sair de casa. Deu pra ouvir, pelo menos, porque apesar de morar no aterro, a única vista que tenho da minha janela é um muro com infiltrações. Sentei no sofá e apaguei a luz, enquanto uma multidão de plebeus, como eu, era vítima de arrastões. Três dias depois encontro um amigo no supermercado. Ele teve um programa melhor. Disse que sentou num barzinho da Glória, pediu uma cerveja e curtiu o som. E ainda me sai com essa brilhante: não pagou couver para Roberto Carlos. Nem eu, duas vezes.

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