Rio de Janeiro, 03 de Maio de 2026

O refrão de um país parado

Por Francisco Louçã: Em um texto em que apresenta sua candidatura à presidência de Portugal, o deputado do Bloco de Esquerda fala sobre um torpor que tomou conta de seu país. "É a vida" tornou-se a desculpa para o atraso e a pequenez. O inevitável desarma a urgência, a rotina massacra a modernização. (Leia Mais)

Domingo, 23 de Outubro de 2005 às 13:43, por: CdB

 

Houve há pouco tempo um primeiro-ministro que, confrontado com qualquer dificuldade, desanimava com um "O que é que querem, é a vida". Este torpor parece tomar conta do país: "é a vida" tornou-se a desculpa para o atraso, para a pequenez, para a injustiça. O inevitável desarma a urgência, a rotina massacra a modernização. "É a vida" é o refrão de um país parado.

E está de facto parado. Trinta anos depois do 25 de Abril, os dois grandes impulsos de transformação deste tempo parecem esgotados: a democratização, que nasceu com a revolução, e a normalização, que se consolidou com a integração europeia. A democracia está a ser corroída pelo privilégio e a Europa pela desistência.

O filósofo José Gil chamou a estas abdicações o nevoeiro, resultado de uma democracia de consensos de baixa intensidade sem o reconhecimento e o combate das diferenças, e mostrou como a restrição do espaço público à omnipresença do populismo, tanto político como da indústria de entretenimento, esvai a democracia. Onde não há soluções há espectáculo - "é a vida". Este nevoeiro é o consenso.

Sou candidato porque quero acabar com o consenso mole: o consenso é o pai da irresponsabilidade. Porque pagamos hoje um preço imenso por este nevoeiro triste: o fechamento do regime político e o apodrecimento do regime social são os resultados destes longos anos de bloco central.

O apodrecimento é a tragédia de Portugal e a responsabilidade é da élite que nos domina: quem manda não sabe e quem pode não quer. Esta élite viveu do delírio colonial durante séculos, fez uma guerra que só podia perder, habituou-se a ser uma aristocracia de privilégios e concebe agora como sempre o Estado como um cão de guarda dos seus poderes e negócios.

Os antigos capitães de indústria do Império são hoje barões da finança: com a sua liderança não se aprende, especula-se; não se produz, vende-se; não se inventa, compra-se - "é a vida". O ouro do Brasil acabou, os fundos comunitários estão a acabar e Portugal é o país com a maior desigualdade entre os mais ricos dos mais ricos e os mais pobres dos mais pobres, com um desemprego real a alcançar os 10%, com o terceiro maior número de trabalhadores precários da Europa, com a maior dependência externa - a empresa portuguesa que mais exporta é estrangeira e pode ir-se embora em 2011. Ao mesmo tempo, a corrupção tornou-se um modo de vida e 20% da economia não paga imposto - "é a vida"?

Entretanto, a verdade das contas que interessam é ocultada pela espiral do crédito: nos últimos dez anos o endividamento das famílias passou de 40% para 118% em termos do seu rendimento disponível. O futuro vai ser pago em prestações por quem pouco tem.

Não nos enganemos: Portugal está a mergulhar num ciclo de decadência e de empobrecimento e o único problema da democracia é saber como se juntam as energias sociais para inverter esta situação e vencer o atraso.

O bloco central governante apercebe-se exactamente deste ciclo de crise e é por isso que quer impor o totalitarismo do discurso consensual e ao mesmo tempo estrangular a democracia com o populismo nos círculos uninominais - o mais grave atentado que se podia conceber contra o pluralismo e a verdade das eleições.

Sou candidato porque é indispensável que haja quem combata contra esta irresponsabilidade. Sou candidato porque é preciso quem acuse o salve-se quem puder que está a instalar-se a todos os níveis entre os poderosos: os administradores públicos impõem para si próprios os maiores salários e regalias da Europa, como temos o espectáculo despudorado de governantes que são reformados antecipados mas que querem fazer aumentar a idade da reforma para os outros. O tráfico de interesses entre governantes e empresários é simbolizado escandalosamente pela vertigem identitária

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