Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

O quebra-cabeça iraquiano

Por Emir Sader - Dividido entre curdos, sunitas e xiitas, o Iraque enfrentará enormes dificuldades na busca por unidade. (Leia Mais)

Terça, 03 de Fevereiro de 2004 às 06:36, por: CdB

Como diz o ditado, "É fácil tirar o fantasma da garrafa. Difícil é colocá-lo de volta." Países compostos por várias nacionalidades, etnias ou seitas têm dificuldade de manter sua unidade. Quando ela é destruída, sucedem-se instabilidades difíceis de ser superadas. Passou-se e ainda se passa isso com a ex-URSS e a ex-Iugoslávia. A mais nova vítima de um quebra-cabeça desfeito, cuja unidade coloca problemas aparentemente intermináveis, é o Iraque.

Pouco mais de um mês depois da prisão de Saddam Hussein, janeiro bateu os recordes de vítimas, tanto norte-americanas quanto iraquianas. Não há horizonte para uma nova unidade do país, depois da invasão e da ocupação norte-americana.

A divisão entre xiitas, sunitas e curdos, sobre a qual se sobrepõem todas as feridas da invasão, da destruição de símbolos fundamentais para a identidade do país, mais as humilhações vividas pela população, faz com que a tarefa de recompor algum tipo de governo, com um mínimo de representatividade e de estabilidade, se torne quase impossível.

Os xiitas querem uma república islâmica. Lutam por eleições universais e diretas, seguros de que devem triunfar. Mas desejam, com esse triunfo, impor a contrapartida do que era a hegemonia sunita - instalar um outro regime fundamentalista, desta vez xiita. Os curdos são favoráveis a um regime secular, federativo, não dividido por tendências religiosas - que igualmente os dividiria -, mas que lhes permita uma autonomia regional. Os sunitas, considerando-se os principais protagonistas da resistência à ocupação norte-americana, desejam ser mais representados no Conselho de Governo Iraquiano, pretendendo ter papel fundamental em um novo governo.

Enquanto os sunitas, imbuídos do nacionalismo árabe, resistem, os xiitas, três quintos da população do país, estão relativamente seguros de seu papel hegemônico, mas lutam por eleições que lhes permitam fazer valer seu número, além de ser a comunidade melhor organizada. Eles desejam que os clérigos tenham poder para assegurar que as novas leis do país não contradigam o Islã.

Os EUA pretendem se contrapor ao poder dos xiitas, cooptando os sunitas - o que parece impossível -, buscando aproximá-los dos curdos - porque 95% destes são sunitas -, embora eles não se identifiquem etnicamente ou por tendências religiosas e se considerem as maiores vítimas dos sunitas, no regime de Saddam.

Os discursos sobre o novo governo, eleito, de forma indireta, segundo Washington, abrirão novas feridas, em lugar de fechá-las. No entanto, pelo outro lado, aquele da resistência, também parece impossível qualquer tipo de poder alternativo que possa recompor a unidade do Iraque, fragmentado e ferido por tudo o que viveu nas duas últimas décadas e continua a viver.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História" (Boitempo Editorial) e "Século XX - Uma biografia não autorizada" (Editora Fundação Perseu Abramo).

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