As eleições palestinas, encerradas em 25 de janeiro com a vitória surpreendente do Hamas (sigla para "Movimento Islâmico de Resistência"), foram acompanhadas de perto por uma missão de observadores brasileiros. A missão, composta por políticos e diplomatas, avaliou o grau de transparência do processo de votação. Mais de um milhão de palestinos - cerca de 74% da população - foram às urnas. "Considerando-se que a votação não é obrigatória, o número espanta", afirma o deputado federal Nilson Mourão (PT-AC), que foi um dos observadores.
Para os membros da missão, houve tranqüilidade nas eleições. Apenas um incidente foi registrado: um grupo de judeus ortodoxos tentou impedir que a seção eleitoral de Jerusalém Oriental fosse aberta, mas rapidamente foram inibidos pela presença da polícia israelense, que garantiu o funcionamento das urnas. "O processo eleitoral não deixa nada a dever para as eleições ocidentais. Não constatei nenhuma irregularidade", disse Mourão. Para outros membros da equipe, a eleição refletiu a vontade do povo palestino por mudanças políticas.
A delegação chegou na Palestina um dia antes das eleições.
- Em Gaza, fizemos algumas audiências, incluindo uma com a Comissão Eleitoral Palestina, o equivalente ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) brasileiro. No dia da eleição, fomos para a Cisjordânia. Tivemos audiências em Ramallah, em Belém e em Jericó - aponta Mourão.
As pesquisas de boca-de-urna na Palestina apontavam um empate técnico entre o Hamas e Al Fatah. Mas o resultado mostrou que o "Movimento Islâmico de Resistência" conseguiu a maioria das cadeiras do Parlamento. Foram 74 das 132 vagas legislativas, ou 56%. Além disso, o Hamas tem o direito de escolher o primeiro ministro da Palestina. Há quarenta anos o Al Fatah governava a ANP (Autoridade Nacional Palestina) com ampla maioria.
Mourão atribui a vitória do Hamas à sua relação direta com a sociedade. Apesar de haver células terroristas, "o Hamas surgiu para lidar com a base da sociedade, para representar as camadas mais pobres. Eles expuseram os erros da ANP", diz o deputado. Para ele, as peças de propaganda do grupo vitorioso traziam três elementos principais: o apego intransigente à religião islâmica, a retirada dos judeus da faixa de Gaza e a má-administração da ANP pelo Al Fatah.
"O povo palestino quer o poder político associado com o poder religioso. Eles rejeitam o Estado laico", diz Emir Murad, secretário-executivo da Copal (Confederação Árabe-Palestina do Brasil). A retirada dos judeus de Gaza foi outro ponto importante. Na opinião de Mourão, "o Hamas difundiu a mensagem de que os israelenses saíram correndo da Faixa de Gaza". O partido teria prometido ajudar o povo a expulsá-los da Cisjordânia. "Gaza é o berço do Hamas, e sua libertação ampliou o apoio ao partido", disse o deputado.
Hamas eleito, e agora?
O secretário da Copal, que acompanhou as eleições através da imprensa brasileira, acredita que o Hamas está disposto a discutir o armistício e a reconhecer Israel como estado, desde que a Palestina seja beneficiada com a independência política e territorial.
Murad considera que as sanções econômicas que os EUA e a União Européia discutem fazer com a Palestina são uma chantagem. "Querem sufocar o povo palestino", diz ele. Para Mourão, negociação entre os países do ocidente e a Palestina "vai ser um jogo, e quem dará as cartas será o Hamas". Ele avalia que "o partido palestino têm dado amostras de força política".
Outro deputado federal muito ligado à causa palestina, Jamil Murad (PCdoB - SP) crê que o Hamas terá mais flexibilidade para agir como governo. "Eles precisam vencer o obstáculo da violência", diz ele. Jamil também acompanhou o processo eleitoral palestino do Brasil.
Todos eles concordam que o corte de apoio financeiro internacional para a Palestina - que é da ordem de US$ 1,5 bilhões - levará o povo à bancarrota. "As pessoas serão punidas