Por Revista Será? com seus leitores, de Recife: O Brasil entre as mentiras e a corrupção(Depois de uma volta pelas redes sociais, onde impera a desolação e a ladainha de um golpe inexistente, enquanto a operação Lava Jato envolve praticamente toda classe política, surgindo o perigoso espectro de um Donald Trump brasileiro, decidi reproduzir o editorial da revista recifense Será?, mas desta vez acompanhado dos comentários de seus leitores, bem diferentes, sem dúvida, da pobreza de análise dos postados nos blogs chapas-brancas, agora privados dos régios argumentos em reais doados pelo ex-governo. Rui Martins, editor do Direto da Redação)
A interinidade em um cargo público gera sempre algum grau de incerteza e insegurança, que cresce e dificulta a gestão na medida em que se alonga o período para a nomeação e posse do titular. O que dizer da interinidade do mais alto cargo da República? E mais ainda, quando a interinidade é de um Presidente em um país numa grave crise econômica que exige decisões drásticas e rápidas, que demanda liderança e poder decisório do chefe de Estado?
Esta é a situação que está vivendo o Brasil nestes meses de longo e maçante processo de impeachment da presidente da República, que já se arrasta há meses e continua no Senado com repetição à exaustão dos mesmos argumentos, documentos e testemunhos analisados desde a discussão na Câmara de Deputados.
Na atual crise econômica e política do Brasil, alguns meses de interinidade na presidência da República são uma eternidade, criando um estado de enorme insegurança e incerteza política. Quando o Brasil mais precisa de um chefe de Estado, rigorosamente, não tem presidente, suportando a ambiguidade de um interino refém de 81 senadores, que se aproveitam do longo prazo para barganhar favores nem sempre lícitos, e uma presidente afastada que se mobiliza e conspira para voltar ao cargo, participando de atos públicos e negociando (com que meios ou argumentos?) a alteração do voto de senadores.
O rito definido pelo Supremo Tribunal Federal deve ser respeitado, claro, mesmo sabendo que nada de novo – fato, informação ou argumento – vai surgir desta repetição maçante de acusação, defesa, documentos lidos e relatórios divulgados. Mas o Brasil tem pressa, as urgências do Brasil clamam por um presidente, um chefe de Estado com responsabilidade, competência e coragem para enfrentamento da grave crise econômica. (Editorial)
Comentários:
Teresa Sales , fundadora e editora.
Houve um tempo – os primeiros da “Revista Será?” – em que o nosso editorial (a Opinião) era consenso entre os editores. Depois, com a dificuldade de se chegar a um consenso em alguns assuntos controversos, adotamos o critério da maioria, levando em conta esse precioso espaço de debate que a revista oferece. Nesta semana, tanto quanto na passada, a Opinião de nossa revista não é a minha. Eu começaria pela ultima frase, para dizer que, de fato, o Brasil tem pressa. Porém, falta ao presidente da interinidade a estatura de um chefe de Estado com responsabilidade, competência e coragem para enfrentamento da grave crise econômica (e política, é importante que se diga) do país. Com esta nova serie de denuncias, ninguém governa mais o pais, porque Michel Temer está melado e seus aliados no Senado mais sujos ainda. Tão sério quanto as denúncias, a fazer cair ministros como fruta podre, é a desfaçatez da compra da base parlamentar, logo de saída. No cenário de crise, 60 bilhões de aumento para os servidores públicos! E então, a crítica só vale quando se trata de governos do PT? Para mim, nem mais governo interino existe, pois agora a Lava Jato atinge a alta cúpula do PMDB: Romero Jucá, Renan Calheiros, Sarney e Eduardo Cunha, citado diretamente Michel Temer, que ainda ontem foi capa da Folha de S.Paulo. Estamos em pleno desgoverno interino. Não dá para desconhecer esses fatos. A Operação Abafa, para felicidade geral da nação, não abafou. Na Espanha, por exemplo, as pesquisas demonstram que a confiança na política – nos políticos e nas instituições – decai a cada dia. Esse problema tem dimensão global e essa é a discussão importante. Discutir a crise brasileira achando que vale tudo para implantar um plano econômico de notáveis (?), para mim, é entrar em barco furado. Sim, o Brasil tem pressa, mas a pressa não justifica apoiar um governo a qualquer custo em nome do pragmatismo de segurar a economia até 2018. Segurar como? Ainda bem que, sem Lula para cooptar os movimentos sociais, esses ressurgem e as ruas continuam dando o recado.
Teresa Sales – Fundadora e editora da Revista Será?
João Rego,
Caríssima Teresa, Saúde e paz!
Eu entendo sua inquietação e absoluta descrença no governo interino. Entendo, porém não concordo. Por uma razão simples: o Brasil chegou ao que chegou por ter na sua mais intrínseca natureza política e ética, ao longo da sua história, a corrupção como base para o patrimonialismo de Estado. Não foi diferente com o projeto do PT. Dos outros, todos sabíamos.
O que temos agora?
Um governo tentando dar um rumo a economia no meio do caos, criado, planejado e produzido nas entranhas do PT – hoje, grande parte de suas lideranças enjaulados e outras na fila.
Cabe-nos entender que não existe o caos do caos. Já estamos nele e é dele que temos que sair. E isto significa torcer pelo governo interino chegue a termo até 2018, quando, aí sim, teremos eleições para presidente. Se até lá a Lava Jato for delapidando parte importante da elite política, que seja. Vivemos um momento de mudança irreversível onde a ética na política está sendo imposta na leia ou na marra, como dizia meu saudoso colega de partido Francisco Julião. Se quer alguém absolutamente limpo e puro, não procure na política. Talvez em algum monastério no Tibet. E olhe lá! A sociedade dos homens é uma pálida expressão das suas mais primitivas pulsões, encobertas pela fina camada do processo civilizatório. Na política é onde ela é mais fina e sutil. Na sexualidade irrompe-se sempre, algumas vezes controladas, como é o caso do orgasmo, outras descamba para as perversões e as psicoses. Nessas estruturas psíquicas não há a possibilidade de reconhecer a lei e a culpa – também em alguns personagens da política.
Um beijo.
Sergio C. Buarque,
Teresa, não vejo como o editorial que você leu acima seja uma defesa do governo Temer, menos ainda que esteja apoiando “um governo a qualquer custo” e “achando que vale tudo para implantar um plano econômico”. A qualquer custo, Teresa? Vale tudo, Teresa? É essa a sua leitura do texto? Acho que o editorial está muito longe disso e de qualquer defesa deste governo. Além disso, gostaria de lembrar que em editorial anterior (3 de junho) a Revista Será fez uma critica dura e clara ao que você chama no seu comentário de “desfaçatez da compra da base parlamentar” com o aumento de salários dos servidores públicos. Só para lembrar, transcrevo o que disse o editorial a respeito: “o presidente Michel Temer apoiou aumento de salários dos servidores públicos federais, na contramão do esperado e prometido ajuste fiscal no meio de uma grave crise econômica e enorme déficit fiscal (…) Pelo visto, o presidente Michel Temer decidiu governar cedendo aos pedaços diferenciados do Congresso, aos desejos das bancadas corporativas – quase nunca convergentes com o interesse nacional – e distribuindo benesses aos servidores públicos, incluindo os próprios parlamentares”. Por isso, acho injusto quando pergunta se “a crítica só vale quando se trata de governo do PT”. Abraços.
Clara Gaia Bahia,
Felizmente Tereza não precisa de que a defendam.Mas, em absoluto não lhe cabe a pecha de ingênua como sugere o comentário após seu posicionamento. Quem conhece Tereza sabe que é uma pessoa que busca ser coerente e honesta,como pessoa e boa profissional que foi a vida toda. Discordamos em muitos pontos, sobretudo em nossa perspectiva política, mas não deixo de ficar feliz com as reflexões que fez a proposta do editorial da revista Será.
João Rego,
Clara, essa “pecha de ingênua” é por sua conta e risco. Tenho um enorme respeito e carinho por Teresa e jamais iria colocar minhas ideias contrárias a dela se não fosse para jogarmos luzes no objeto em questão.
Luiz Baltar,
Queridos amigos Teresa e Sérgio - Como me conhecem há muito tempo, sabem sou do tipo coruja que presta muita atenção, mas não fala. Desta vez vou abrir uma exceção e dar um palpite. Será que devo me meter nesse debate de especialistas na área da ciência social enquanto eu sou apenas um velho engenheiro que entende – pouco – de outras coisas? Será?
A minha leitura do editorial é a mesma de Teresa. Na minha santa ignorância, além da referência inicial à incerteza e insegurança decorrentes da interinidade, a última frase do editorial parece-me eloquente: “Mas o Brasil tem pressa, as urgências do Brasil clamam por um presidente, um chefe de Estado com responsabilidade, competência e coragem para enfrentamento da grave crise econômica”. Se não é uma eloquente defesa do término da interinidade do Sr. Temer, o que será? Esse término pode se dar pelo afastamento definitivo da presidente eleita ou pelo afastamento de ambos. Será esta última, a tese defendida pelo Editorial? Se é, não está clara.
Na minha modesta avaliação, mais grave do que uma crise econômica – que não é só nossa – é a crise política. Tal como disse Teresa, não me consta que o referido senhor tenha a responsabilidade e a competência requeridas no editorial. As demonstrações cada vez mais evidentes de que os líderes do governo interino cometeram os mesmos desvios que têm sido alegados para justificar a sua assunção à interinidade atual depõem contra esse governo provisório.
Tenho que lembrar o espetáculo deprimente que foi a seção da Câmara Federal, em 17 de abril, que acatou o processo de impedimento da presidente eleita, assistido ao vivo e a cores pela maioria do povo brasileiro. Nessa lamentável seção mais de 90% dos senhores parlamentares que votaram sim, o fizeram em nome do combate à corrupção – quanta falta de vergonha! E agora, que atitude tomar diante dos fatos vindos à tona recentemente? Será que a bandeira do combate à corrupção que foi apontada como tese para condenar um governo eleito pela maioria dos votos da população permite honestamente justificar a defesa do governo interino?
O país está em uma situação difícil e não sei qual é a saída possível, mas sei qual é a pior: defender a efetivação desse governo interino que foi guindado à sua condição atual por interesses que não são os que se tenta explicitar. Conquanto considere que a presidente eleita cometeu erros na condução da política econômica e teve dificuldade na articulação política, não estou convencido de que houve crime de responsabilidade e, portanto, não vejo justificativa para o seu impedimento. Na minha “carta de princípios” a solução teria que ser o respeito ao resultado das urnas. Mas diante do estágio de intolerância a que chegamos e com o parlamento que temos, a presidente eleita terá condições de governar? Não estaria na hora de ouvir a manifestação de todo o povo? Será?
Abraços.
Sérgio C. Buarque
Caro Lula, não existe certificado de especialista (e, se existisse eu não o teria) e a sua opinião política, com certeza, tem o fundamento e as informações de quem acompanha a realidade brasileira com atenção e preocupação com o futuro. Por isso digo, seguramente expressando a opinião da Revista, que a sua participação neste debate enriquece a reflexão e, desta forma, o conhecimento. Não poderia ser diferente porque este é o mote da Revista valorizando, principalmente, comentários divergentes mas elegantes, respeitosos e com argumentos, como você faz. Em todo caso, como a discordância constroi mais que as convergências, me permita fazer alguns comentários aos seus, agora em carater pessoal e não como um dos editores da Revista.
1. Penso que ninguém pode discordar de que a interinidade provoca incerteza e insegurança e que estas sejam muito ruins para o Brasil num momento de grave crise econômica e política. Acho difícil que pense diferente, mesmo quem deseja a volta de Dilma embora, aparentemente, interesse às suas forças políticas atrasar ao máxmo o processo. Posso entender como uma estratégia política do PT mas, convenhamos, o prolongamento da agonia e de crise de governabilidade por mais tempo pode ser dramático. Não serve ao Brasil e, rigorsamente, não serve sequer a Dilma (e ao PT) que pode voltar ao poder com a economia mais desestruturada do que ela deixou se não houver uma ação forte e decidida nestes meses. A expectativa de um término da interinidade o mais rápido possível é muito mais geral, independentemente do deselance do processo de impeachment, confirmando Temer ou devolvendo o poder a Dilma.
2. Em relação ao clamor por um presidente com competência e responsabilidade tem, a meu ver, uma expectativa de que Temer pudesse ser esta figura mas constitui, ao mesmo tempo, uma cobrança mais geral decorrente da percepção de que ele vem falhando nestes quesitos. Não tanto pelas denuncias de corrupção (que demonstra apenas que todos calçam quarenta, Dilma, Lula, Temer, et caterva) mas pelas contradições nas propostas de ajuste fiscal. Como falei com Teresa, gostaria que lesse o editorial do dia 3 de junho intitulado “E ajuste fiscal, Presidente”. Por outro lado, veja que este último editorial sequer pede um presidente honesto porque esta qualidade parece muito escassa nos meios políticos; se vamos tratar de denúncias, Temer foi acusado de pedir dinheiro ilítico para campanha e Dilma foi acusada de operar o escândalo de Pasadena. Deixemos então a Lava Jato fazer seu trabalho. O que me angustia agora é chefe de Estado que tome decisões sérias na economia. Ocorre, caro amigo, que se existe dúvida em relação à competência e responsabilidade de Temer neste terrano, e eu começo a ter depois de tanta barberagem que tem feito, tenho certeza da completa incompetência e irresponsabilidade da presidente afastada, Dilma Rousseff.
3. A crise politica é grave, claro, mas o problema é que a economia está afundando e precisa de grandes e rápidas decisões para implementar mudanças conjunturais e estruturais para tirar o país do abismo econômico. E a crise econômica não espera que um dia se faça uma reforma política e que, então, possa ajudar na reconstruação da governabilidade. Temo que a ideia de que a “crise não é só nossa” sirva como uma desculpa que nos acomoda e elude a essência da problemática e, portanto, adia decisões. Todos os países do mundo, mesmo a União Européia, estão crescendo de forma moderada, exceto Venezuela e Brasil; a Zona do Euro, com menor crescimento, cresceu 1,5% ao ano nos últimos dois anos, e os Estados Unidos, 2,4% ao ano, Imagine o desastre para um país com uma depressão econômica de quase 8% em dois anos (2015/2016), com as consequências na renda e no emprego, um Estado falido com um gigantesco déficit fiscal.
4. O espetáculo da votação do impeachment na Câmara foi deprimente. Mas se 90% dos parlamentares que votaram são corruptos e votaram, cinicamente contra a corrupção, acho que a esmagadora maioria deles faziam parte da base política de Dilma até alguns meses antes. Não eram menos corruptos e, aliás, pelo que se anuncia, muitos deles recebiam propinas do esquema do governo.
5. Nas minhas críticas ao governo Dilma, nos últimos anos, a corrupção teve um peso muito secundário. O que critiquei sempre foi o descontrole completo na gestão macroeconômica, que levou o Brasil ao desastre, independentemente do ambiente internacional. Mais importante que a corrupção e mesmo o aspecto ilegal das pedaladas, o “crime” de Dilma foi a forma irresponsável como tratou as finanças públicas provocando um rombo que vai afundar o Brasil por alguns anos. Acho que você está sendo muito benevolente quando considera que “a presidente eleita cometeu erros na condução da política econômica”; não foram erros, foi um desastre que combina incompetência, irresponsabilidade e arrogância.
6. Não vejo uma saída boa nem fácil para o Brasil, nem sei, mesmo, qual é a menos ruim nesta crise. Mas, ao contrário de você, acho que a pior saída seria a volta de Dilma, acrescentando o que ela já mostrou de despreparo o enorme desgaste político. Pelo que dizem, nem o PT quer ela de volta.
7. Não sei se quando considera que talvez estivesse “na hora de ouvir a manifestação de todo o povo” você está pensando em antecipação de eleições, o que tem sido proposto por alguns políticos e a presidente afastada sugeriu um plebiscito para definir eleições. Pode ser uma saída se o quadro político se agravar mais ainda, embora possa parece estranho que a presidente afastada tenha pensado nesta alternativa apenas depois que saiu do governo. No entanto, volta a questão da urgência que tratou o editorial. Na melhor das hipóteses, se for aprovada uma mudança constituicional, não imagino que esta eleição ocorra ainda este ano. E quem governa neste período? Quem terá condições de governabilidade neste vazio para lidar com a crise econômica?
Grande abraço.
Eurico Pincovsky
Infelizmente o tempo da política não segue em ritmo desejado, não compreende a urgência. Estamos vivendo entre tempestade e calmaria, com breve intervalos de suspense, esperando o próximo escândalo a ser desvendado. O que só aumenta a complexidade da arte de governar. Por enquanto, o mais importante é controlar a economia e combater a corrupção. A vulgarização dos escândalos é perigoso, pode mudar a opinião pública, ampliando a insatisfação, o descrédito nas instituições e a decepção da sociedade.
Nealdo Zaidan
Lido o editorial, com minha sempre admiração por Teresa Sales; lidos os comentários, resta a pergunta: A titular fez o que fez. O interino está fazendo o que faz. Entregar a quem? Lembrando que, se acontecer o retorno da presidente afastada, o interino retornará como vice. E o nosso Congresso, vai continuar dp lado que der mais.
Helga Hoffmann
O Editorial disse apenas que o caráter provisório do governo é ruim para o país, que seria melhor para o país que acabasse a interinidade. Como é que alguém pode achar que uma situação assim provisória não é ruim para o país? Como governar adequadamente com uma espada de Dâmocles pendente? Claro que é mais difícil tomar as medidas necessárias e reconstruir a confiança sem saber se o governo será o mesmo em poucos meses. Os cargos estão sendo preenchidos ainda agora. Hoje estive em um evento para lembrar 20 de junho Dia Mundial do Refugiado, organizado em conjunto por ACNUR, Caritas e SESC (aliás mostrou um belo trabalho de integração que está sendo feito por essas instituições). Menciono o evento para falar da “interinidade”: o presidente do CONAR Comissão Nacional de Refugiados, Gustavo Marroni, que compareceu ao evento, havia sido nomeado há apenas 3 dias. Vinte mil pedidos de refúgio no Brasil aguardam alguma decisão.
Achar que não se pode criticar tão prolongada interinidade só tem um significado: preferir a protelação. Seria melhor para o país que a Comissão de Impeachment decidisse logo. Mas a bancada do PT está fazendo uma obstrução delirante (é o único adjetivo adequado que encontro para o comportamento dos senadores que o público considera bonitos – ao menos por fora – a ponto de serem conhecidos como “barbie” e “lindinho”), com o claro objetivo de ocupar os 180 dias sem resolver nada e depois defender a volta da Presidente afastada, simplesmente por esgotamento do prazo: por exemplo, protestaram aos gritos, para que não se ouvisse a voz dos colegas, quando o relator dispensou testemunhas que só poderiam repetir dados já apresentados. A bancada lulodilmista repete exaustivamente a mesma coisa, que se resume a variantes da narrativa do golpe, já que ninguém consegue argumentar que não houve crime fiscal e ocultação da real situação orçamentária. O crime de responsabilidade está mais que claro e provado nas 126 páginas do relatório do Senador Antonio Anastasia. Os argumentos da bancada da protelação ficam em generalidades como a declaração recente de que “a política neoliberal foi iniciada na China por “pi-no-chê”. Coloco o que ouvi, sei lá se ele pensava no ditador chileno, deve estar imaginando algum chinês de nome “Peeh Noh Shee”. Quem não acreditar, o vídeo da reunião da Comissão de Impeachment está disponível.
Não tem nenhuma base científica, é sofisma e ofuscação linguística, argumentar com umas generalidades de que a crítica e o apoio devem ser distribuídos igualitariamente para um lado e para outro, como se fosse um pedaço de pão que vou a dar a duas pessoas igualmente famintas. O diabo está nos detalhes, que poucos tem paciência de acompanhar. Os detalhes de um lado são completamente diferentes dos detalhes do outro lado. E estão sendo discutidos exaustivamente, com amplo direito de defesa, assim como já haviam sido discutidos exaustivamente na Câmara dos Deputados, antes da votação.
Paulo Brasil
Tenho ficado com a impressão de que as posições predominantes dos Editoriais da Revista estão voltadas para a economia, o ajuste fiscal. Dessa forma a questão central é Chamar o Contador.
Concordo que colocar a economia nos trilhos é tarefa importante, mas colocá-la como a questão mais relevante da situação do país é cair no reducionismo simplório. As questões mais graves são políticas e superar a crise econômica com a manutenção da crise política que está aí é muito pouco.
Não defendo a volta da Dilma, acho que não terá governabilidade. Mas acho que Temer não é um governo legítimo. Independentemente de que tenha havido ou não “crime de responsabilidade” (a questão é contraditória entre os juristas), o fato é que o processo de impeachment é uma enganação. Ou há quem acredite que os deputados e senadores impiticheiros votaram sim em defesa da Constituição? Ou por serem republicanos?
Os impiticheiros estão no seu papel de enganadores; mas nós não podemos cair na posição ingênua dos enganados.
Ressaltar somente a questão econômica e pedir pressa para a conclusão do impeachment em nome da urgência de solucionar essa questão é aceitar a enganação. É sim, na prática, defender politicamente o governo Temer. Não adianta o Sérgio argumentar que a revista fez crítica “dura e clara” ao aumento de “salários dos servidores públicos”. A crítica foi feita em defesa do “prometido ajuste fiscal”, ou seja, defesa da vertente econômica.
A revista dá a impressão que a sua linha é a seguinte: vamos colocar as contas em ordem, não interessa com quais governantes, e depois pensaremos na política. Será?
Luiz Baltar
Caro Sérgio, permita-se dizer algo a respeito do seu ultimo comentário que mostra uma posição mais clara do que aquela que consegui perceber no editorial.
1 – Na minha leitura você entende que a melhor forma – ou menos ruim – de acabar com a interinidade é manter o Temer. Minha visão é diferente, por duas ordens de razão, mesmo considerando que a volta da Dilma dificilmente resolverá o nosso problema, em face do estágio a que chegamos e do parlamento que temos.
2 – A primeira razão é formal e tem a ver com a legalidade e legitimidade do impedimento. Este se justificaria se estiver caracterizado o crime de responsabilidade. Acho que não está e não estou sozinho – vários juristas de renome têm essa opinião e parlamentares que votaram pela admissibilidade do processo já declararam publicamente a sua dúvida. É bom lembrar que se há dúvida não pode haver condenação.
Está cada vez mais evidente que a votação, sobretudo na Câmara, mas não somente, teve outras motivações pouco republicanas. Nesse sentido, repito que 90% dos parlamentares declararam publicamente a razão de seu voto, sem que essa tivesse qualquer relação como objeto do julgamento. Sendo assim, independentemente da desfaçatez de alguns, serão eticamente defensáveis esses votos? A maioria desses compõe uma quadrilha de corruptos que foram base do governo afastado, o são do provisório e serão se este for efetivado. Todos eles, de qualquer partido, devem ser julgados e punidos junto com os seus corruptores.
Alegar que o impedimento se dá pelo conjunto da obra ou por incompetência na condução da economia também é ferir a constituição, pois essa razão não está prevista na Carta Magna.
Vivi – e você também – parte significativa da minha vida em um período em que as regras legais não valiam nada. Não gostei e não consigo concordar com a ruptura dessas regras. Por isso não posso concordar que a melhor saída – ou menos ruim – é aceitar essa ruptura.
3 – A outra razão é que na minha maneira de ver o nosso maior problema é político e dificilmente resolveremos o problema econômico de forma satisfatória sem enfrentar o outro lado da questão. Entendo que resolver de forma satisfatória é fazê-lo sem que a conta seja paga somente pelos de sempre.
Não acredito que resolveremos o problema econômico do país entregando as decisões importantes a um cidadão comprometido até a alma com o capital financeiro e a política externa a quem acha que o que é bom para os EEUU é sempre bom para o Brasil.
4 – Quando disse em meu comentário que não sabia qual a melhor saída possível é porque, de fato, não sei. Creio que vislumbro a desejável que, segundo me parece, seria: eleição geral ao menos no nível federal, precedida de novas regras; sem financiamento de campanhas por empresas; com menos partidos, melhor definidos em termos ideológicos e programáticos, e proibidas as coligações, entre outras medidas.
5 – Finalmente gostaria de registrar que apesar do meu declarado temperamento mais reservado achei interessante opinar nesse espaço de discussão. Lamento que algumas manifestações se mostrem um tanto preconceituosas e até com adjetivações raivosas. Prefiro os argumentos.
Abraço.
Clemente Rosas
Como quarto membro do Conselho Editorial da Revista, deixo também a minha impressão sobre o comentário da amiga Teresa ao texto de “Opinião”.
Afirmar que o governo interino nem mais existe é puro emocionalismo. Ele está aí,e não há alternativa legal para substituí-lo, em curto prazo. Lutando para legitimar-se perante a opinião pública, depurando-se na medida em que o avanço da Operação Lava Jato (que ningém pode deter, ainda que quisesse, como o fez a Presidente afastada, por várias ações concretas, e não apenas manifestação de intenções)prossegue, arrumando a economia e desmontando, aos poucos, o aparelhamento da administração pública operado pelo PT, que nos levou ao caos econômico, político e moral em que nos encontramos.
Afirmar que a descrença popular na política é fenômeno internacional, com ênfase no Brasil, também não nos leva a nada. Infelizmente, não podemos viver e administrar um país sem política. E a tarefa política mais urgente que temos é concluir o processo de impeachment,para que as reformas tão faladas – inclusive a eleitoral – possam ser viabilizadas.
Enfim, falar em voz das ruas, aludindo às manifestações localizadas de militantes partidários remunerados pela volta da Presidente afastada, só se explica pelo distanciamento momentâneo do país em que se encontra a nossa amiga Teresa. A verdadeira voz das ruas será ouvida no dia 31/7, em manifestação já convocada pelo movimento Vem pra Rua, como apoio do Movimento Ética-Democracia, entre muitos outros, com três lemas: Conclusão do Impeachment, Todo Apoio à Lava Jato e Punição para os Corruptos, sem exceção. Só espero que Teresa já esteja de volta ao Brasil para ver isso.
(Publicado originalmente na revista online Será?Penso logo duvido - http://revistasera.info )Revista Será?, Penso logo duvido, de Recife. Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.
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