Rio de Janeiro, 17 de Fevereiro de 2026

O que podemos aprender com Renan Calheiros

Por Marco Aurélio Weissheimer: A presença dominante do nome “Renan Calheiros”, e dos eventos que orbitam em torno dele, no debate político do país nas últimas semanas é, por si só, um eloqüente sinal de alerta. Aponta para um pântano imobilizador de onde podem sair novas deformidades. (Leia Mais)

Sábado, 15 de Setembro de 2007 às 10:13, por: CdB

Em seu livro “Às portas da revolução” (Boitempo Editorial), Slavoj Zizek tomou o exemplo da eleição de Berlusconi na Itália para sustentar o papel fracassado da moralidade na política. Ele escreveu: “Sua vitória é uma lição deprimente sobre o papel da moralidade na política: o supremo desfecho da grande catarse moral-política – a campanha anticorrupção das 'mãos limpas' que, uma década atrás, arruinou a democracia cristã, e com ela a polarização ideológica entre democratas cristãos e comunistas que dominou a política italiana no pós-guerra – é Berlusconi no poder”.

No Brasil, nos últimos anos, muitas vozes preconizam a necessidade de uma operação “mãos limpas” aqui. Mas qual foi mesmo o resultado dessa operação na Itália: a eleição de Berlusconi, um grande empresário das comunicações que se apresentou na campanha eleitoral como um “não-político”, alguém que estaria afastado de toda “sujeira da política”.

Como se sabe, o governo de Berlusconi foi atravessado por denúncias e acusações de corrupção. Aqui no Brasil, em passado recente, também tivemos um candidato que se apresentou com um discurso similar. O caçador de marajás e de corruptos não terminou seu mandato. Em um passado um pouco mais distante, tivemos a experiência ultra-moralista da UDN, que tampouco resultou em avanço para o país.

Isso quer dizer, então, que o negócio é o “locupletem-se todos”? Obviamente que não. E o emprego do advérbio aqui não é um exercício retórico, mas uma conseqüência lógica. Um dos principais elementos que está na base do fracasso dos discursos e experimentos moralistas citados acima é que eles jamais foram expressões de uma concepção de algo que mereça ser chamado de espírito público. Sempre foram, ao contrário, manifestações de moralidade seletiva – e, portanto, hipócrita – que, necessariamente, precisam esconder seu real objetivo: o poder político.

O território da política e a democracia
Há dois alertas importantes na afirmação de Zizek, segundo a qual a vitória de Berlusconi é uma lição deprimente sobre o papel da moralidade na política. O primeiro consiste em nos lembrar que o território da política é, fundamentalmente, o território do poder, e que cruzadas moralistas na política costumam ser capitaneadas por moralistas de resultados. Essa é uma das razões singelas que explicam seus retumbantes fracassos, do ponto de vista do avanço da democracia. O segundo interroga diretamente a tradição da esquerda que, nas últimas décadas, flerta com a possibilidade de uma terceira via.

No Brasil, o PT, especialmente a partir do governo FHC, adotou de um modo bastante enfático o discurso da ética na política, como se esta fosse a principal divergência programática com o projeto do PSDB e PFL, então em curso. A prática parlamentar petista foi dominada pela lógica das denúncias e dos pedidos de CPI que, anos depois, voltaram-se como um bumerangue na sua direção. Ao final das contas, o candidato de Fernando Henrique acabou derrotado não pelo tema da corrupção (até por que seu governo conseguiu construir uma blindagem relativamente eficiente neste tema), mas pela incapacidade de seu projeto político-econômico responder aos problemas que afligiam a população. Mas não se trata, aqui, de fazer um balanço dos anos FHC. Importa sim destacar que a escolha do PT pela centralidade do discurso da ética na política acabou custando um alto preço para o partido.

E esse preço não se reduz ao tema do mensalão. O preço maior pode ter sido mesmo o programático. Voltemos a Zizek, que escreve: “o sonho que a esquerda tem de uma terceira via é igual ao de que o pacto com o diabo possa dar certo: tudo bem, nada de revolução, aceitamos o capitalismo como regra do jogo, mas pelo menos poderemos manter algumas das conquistas do Estado do bem-estar social e construir uma sociedade tolerante em relação às minorias sexuais, religiosas e étnicas”.

Mas há uma perspectiva muito mais sombria no horizonte, acresc

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