No mesmo dia em que foi anunciado que o superávit primário brasileiro bateu um recorde histórico em março, ficamos sabendo que os mercados começam a perder a confiança no governo Lula, segundo reportagem da revista The Economist. Apesar de fazer a "lição de casa" acima do exigido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Lula estaria "enervando os mercados" ao elevar a proposta de reajuste aos servidores públicos e "oferecer verba extra para os sem-terra que invadiram propriedades privadas no interior do país", diz a publicação. Ou seja, os mercados ficariam mais calmos se o governo mantivesse a política de arrocho salarial e tratasse os sem-terra com mão-de-ferro. Ao mesmo tempo em que critica essas políticas "enervantes", a The Economist reconhece, com preocupação, que o governo Lula começa a perder credibilidade e apoio no país em função do aumento do desemprego e da instabilidade social.
A revista também aponta a iminente alta de juros nos Estados Unidos como um fator de preocupação para o desempenho da economia brasileira. E cita o medo de que o Federal Reserve (o banco central dos EUA) aumente a taxa de juros, no menor patamar em 45 anos, drenando capital dos mercados emergentes. Ao reconhecer que um aumento dos juros nos EUA pode causar um estrago menor do que em outros anos, a The Economist admite que esse não é o problema central. A questão é se "Lula conterá os nervos". O que quer dizer exatamente isso? A sugestão é praticamente explícita: diante de uma crescente queda de popularidade, causada por uma política recessiva, o governo brasileiro poderia ser tentado a enveredar por um perigoso "caminho populista", dando aumentos salariais acima do que suportável pelos frágeis nervos do mercado ou, pior ainda, liberando dinheiro para sem-terras, desempregados, aposentados, etc.
Surrealismo econômico
A situação beira o surrealismo e a esquizofrenia. Em março, o setor público brasileiro (União, Estados, municípios e empresas estatais) obteve um superávit primário (receita menos despesas, excluído o pagamento de juros) recorde de R$ 10,282 bilhões. Esse índice, segundo o Banco Central, é o maior desde 1991. No primeiro trimestre deste ano, o setor público economizou para o pagamento de juros R$ 20,528 bilhões. A meta acertada com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para o primeiro trimestre era de R$ 14,5 bilhões - ou seja, o país economizou cerca de R$ 6 bilhões.
A expressão "economizou" merece uma qualificação. Esse dinheiro, que não era uma exigência do FMI, deixou de ser investido em políticas sociais e de recuperação da infra-estrutura do país, sucateada progressivamente nas últimas décadas. Mesmo assim, mesmo dando ao FMI mais do que foi pedido, os mercados continuam nervosos e começam a perder a confiança no Brasil. Mesmo que a direção do FMI venha a público elogiar a "condução responsável" da política econômica brasileira, os mercados desconfiam das reais intenções do governo brasileiro. O que querem, afinal de contas, os mercados?
Chega a ser entediante repetir algumas perguntas. Por que os mercados não ficam nervosos com a divulgação de estatísticas sobre o crescimento da pobreza, do desemprego e da violência no Brasil? Por que os mercados não ficam nervosos com a notícia de que um trabalhador desempregado ateou fogo ao próprio corpo em Brasília, numa tentativa desesperada de chamar a atenção do governo para o seu abandono? Por que é que, afinal de contas, os mercados ficam nervosos quando o governo anuncia que pretende dar aumento salarial acima da inflação para servidores públicos que não recebem reajustes reais há cerca de uma década? Por que, manifestam sua desconfiança quando é anunciada a contratação de servidores públicos em um país onde a carência de médicos, professores e policiais, ganhando salários minimamente decentes, alimenta o abandono de milhões de brasileiros? Ou quando o governo anuncia que pretende gastar alguns milhões de reais para assenta