Rio de Janeiro, 02 de Outubro de 2026

O que Marx não previu

Sexta, 22 de Julho de 2011 às 05:13, por: CdB

Por Amanda Marina 22/07/2011 às 10:57

Uma análise da atualidade sob a ótica do sonho marxista

O que Marx não previu Marx, em sua teoria materialista, afirmava que a evolução das formas como o indivíduo produz sua vida material era a base para a transformação das superestruturas política e religiosa. Com ela, anunciou o fim do Capitalismo através da revolução proletária, o germe da destruição de tal modo de produção. No entanto, tal sistema persiste corrompendo instituições e enfraquecendo valores. O motivo para o prevalecimento desse modo de produção é o fato de que a burguesia industrial, mais uma vez, contornou as adversidades e se manteve no poder. Essa classe malevolamente revolucionária, ao perceber que o operariado estava revoltando-se contra o trabalho excessivo a baixos salários e péssimas condições, tornou-se mais sutil quanto à sua forma de exploração: as fábricas deixaram de ser ?satânicas?, passaram a oferecer melhores condições de trabalho e estimularam seus trabalhadores a qualificarem-se. Porém, essa qualificação seria sempre voltada para a demanda dos meios de produção, os quais agora possuem indivíduos naturalmente disciplinados pela educação familiar e escolar. Iniciamos assim a era da disciplina científica¹, na qual nos encontramos até hoje. Nela, não precisamos de contramestres para nos exigir disciplina e produtividade, exigimos isso de nós mesmos automaticamente porque agora, como diria Michelle Perrot, nosso contramestre é nossa consciência. Vivemos cada minuto de nossas vidas empenhados em sermos úteis e valiosos para o mercado e dessa forma - apenas dessa forma - sermos alguém, o que, na lógica capitalista quer dizer consumir e ascender economicamente para consumir mais. Marx não conseguiu prever que a classe burguesa engendraria no proletariado seus valores e daria a ele essa possibilidade de consumo. E dando aos trabalhadores esse poder de compra, o qual varia conforme a função que cada um exerce, a burguesia inseriria - dentro da própria classe operária ? distinções sociais que a impedem de ver-se como uma única classe. A dificuldade hoje não é apenas que o operariado torne-se para si e passe a lutar por seus objetivos, mas sim que se entenda como um estamento só, uma vez que o poder de compra diferenciado fragmentou-o em subclasses (baixa, média, média-alta e alta) que não se consideram iguais e conseqüentemente não se unem para fazer a revolução. Mesmo perante esse quadro que só tornou o fim da era do capital mais distante, a esperança de uma nova realidade ainda existe e virá ?de baixo? como já havia sido dito. Isso porque junto à onda do mercado veio a tecnologia, veio a internet e a formação da aldeia global. Conhecer o mundo deixou de ser um privilégio para a aristocracia e a cultura popular ganhou voz, ganhou face através da arte em suas variadas manifestações e da disseminação virtual dessa arte. Multiplicam-se pelo mundo movimentos contrários ao globaritarismo, recorrendo ao neologismo pertinente de Milton Santos, que utilizam os frutos do próprio Capitalismo para oporem-se a ele. Diante disso, é possível afirmar que Marx não previu muitas adversidades, mas isso não significa que ele se equivocou quanto ao caminho. Uma outra globalização ainda é possível. Uma globalização aliada da cultura e do bem-estar social, não mais do mercado e do capitalismo financeiro, uma globalização inclusiva e não seletiva, libertadora e não alienante, disseminadora da transformação e não da adaptação, uma globalização em fim popular e de equidade. Referências: ¹PERROT, Michelle. Excluídos da História. Documentário Encontro com Milton Santos de Silvio Tendler. QUINTANEIRO, Tânia. Um toque de clássicos.

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