Rio de Janeiro, 13 de Agosto de 2026

O que diria Betinho

Sexta, 08 de Agosto de 2003 às 07:24, por: CdB

No dia 9 de agosto de 1997 morria Herbet de Souza, Betinho. São 6 anos sem a presença física de uma figura pública ímpar na defesa da cidadania e na promoção dos direitos humanos e da democracia no Brasil. Betinho buscou, mas não conseguiu viver até a festa cívica da eleição e posse de Lula presidente. Uma pena.
 
Relembrando a simplicidade com que apresentava suas ousadas idéias, há de se pensar o que diria Betinho do atual momento brasileiro. Aliás, um momento que merece ser dissecado pelo que revela de mais profundo do que somos e para onde vamos como povo em busca do encontro consigo mesmo.
 
Assentada a poeira das celebrações, o governo Lula em ação reanima o velho debate sobre as possibilidades de nossos limites como projeto de país de uma maneira bem acirrada, para ninguém ficar de fora. Precisamos encarar o desafio de pensar longe, sem medo de escancarar nossas mazelas.
 
Penso que Betinho concordaria em definir o momento como uma espécie de destampe das contradições. Está ficando claro que o governo Lula não tem as soluções prontas, as grandes propostas que resgatam a chamada dívida social de uma vez por todas, o milagre da definição de um modelo de desenvolvimento autônomo e sustentado do Brasil.
 
Mas está claro, também, que Lula aposta no "pacto de incertezas" que significa a prática da democracia na busca de soluções, na construção de propostas, na definição da estratégia de desenvolvimento desejável e possível do Brasil. Até aqui, esta talvez seja a sua maior novidade: um novo modo de definir as políticas, mais do que elas mesmas.
 
Isso provoca uma revelação e até um desnudamento público das identidades e interesses dos diferentes sujeitos sociais e seus representantes, um reposicionamento estratégico e tático em termos políticos, com ações, reações e entrincheiramentos surpreendentes, com uma intensificação do debate público e radicalização de propostas.
 
São as nossas contradições mais profundas que começam a emergir. Simplificando, entre as ameaças de especuladores no âmbito do mercado e as pressões dos movimentos sociais, teremos muitos momentos de suspense e angústia até que se dê um passo no rumo de enfrentamento da exclusão e das desigualdades sociais que o Brasil precisa dar.
 
Há de se reconhecer que não é a consciência das contradições que acaba por destruir as sociedades, mas a incapacidade política de extrair delas a força de superação, por meio de concertações e pactos entre os diferentes sujeitos em luta. E democracia é exatamente este modo de politicamente construir a partir das contradições e tensões, superando-as.
Democracia vista como opção estratégica e não como utilidade política de ocasião. Posto isso, o modo de ser do governo Lula vai ser isto mesmo: um radical compromisso com a democracia, que significa viver sob tensão entre a concertação e a ruptura como condição de construção de propostas e de um novo rumo para o Brasil – onde povo e nação se encontrem, com desenvolvimento humano sustentável.
 
Bem ao gosto de Betinho, que dizia ser necessário "pôr o dedo na ferida certa", sejamos razoáveis: quem provoca a tensão? Os sem-terra e os sem-teto? Por que somos tão incapazes de ver nos agentes de mercado e na ditadura que impõem à economia, ao governo e à sociedade em geral a causa das tensões? Para quem a tão explícita ameaça permanente dos tais mercados é sinônimo de estabilidade? Por acaso, não é a total falta de regulação do chamado mercado financeiro – matriz do modelo que o governo Lula herdou e que não vai se livrar tão facilmente – que não só impede, mas até acentua a exclusão social, com falta de geração de empregos, com maior concentração de renda etc? Ou ainda, olhando pela outra ponta, a tensão são os sem-terra que provocam ou as milícias de jagunços de latifundiários e a falta de recursos públicos – dado o atrelamento da política à produção de superávit fi

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