Por Tarcísio Lage - Os maiores erros do PT, do meu ponto de vista libertário, anarquista, foram cometidos com a governabilidade . Isso começou em 2002 durante a eleição que levou Lula à presidência. Eleição às custas do programa original do PT elaborado no calor das lutas operárias contra a ditadura e substituído por um amontoado de medidas pragmáticas para atender a composição governamental com outros partidos à direita.
Os acordos e as alianças para governar desvirtuaram o PT original
Tapar o sol com a peneira pode dar câncer de pele. Câncer pode destruir de vez o corpo humano, do mesmo modo que milhões de pessoas nas ruas, perigosamente vestidas de verde e amarelo, podem arruinar um governo, derrubá-lo de vez ao mantê-lo refém até o fim do mandato.
O verde e amarelo assusta e eu explico por que. A conjunção dessas duas cores representa o símbolo máximo do País e quando ela toma as ruas é sinal de grande comoção nacional, seja de alegria, tristeza ou, no caso, de revolta contra um governo. Não se trata de um fenômeno brasileiro. Bandeiras e símbolos nacionais normalmente são utilizados em casos de guerra ou por partidos e instituições para promover suas ideias e objetivos como sendo de toda a nação. Não podemos esquecer da suástica erguida quase por uma país inteiro.
Junto ao uso exacerbado do verde e amarelo, há o clima emocional que tomou as ruas no dia 15 e a campanha de ódio presente na internet e em veículos pseudamente de informação como é o caso da revista VEJA, transformada em puro instrumento de propaganda contra o governo. Um vídeo presente no facebook mostra pessoas fardadas em Brasília pregando abertamente o golpe e um ex-agente do DOPS dizendo que mataria com prazer os que hoje são políticos e lutaram contra a ditadura. A tese obtusa de que um bando de militares de carreira pode substituir os políticos seria ridícula se não estivesse inserida numa manifestação de milhões.
Parece haver duas enormes contradições nos protestos deste março de 2015. A primeira é que setores do capital financeiro, que apoiaram e ajudaram as manifestações, nunca estiveram tão bem como no que podemos chamar de a era PT. Joaquim Levy, por exemplo, é o homem do capital financeiro, assim como Armindo Fraga seria se Aécio tivesse ganho as eleições. A segunda e talvez maior contradição é a sanha moralista jogando sobre o PT toda a culpa da corrupção. E, no entanto, já disse em outros artigos e repito: foi o PT o primeiro partido que chegou ao governo e abriu espaço para investigações sobre a corrupção endêmica no Brasil. Mas, evidentemente, isso não o exime da culpa de ter quadros importantes metidos no banquete das propinas.
No entanto, os maiores erros do PT, do meu ponto de vista libertário, anarquista, tem o nome pomposo de governabilidade .
Isso começou em 2002 durante a eleição que levou Lula à presidência. Eleição às custas do programa original do PT elaborado no calor das lutas operárias contra a ditadura e substituído por um amontoado de medidas pragmáticas para atender a composição governamental com outros partidos à direita.
Um velho problema da esquerda ou de setores da esquerda. Pular etapas, não esperar o amadurecimento das contradições próprias da luta de classes para chegar ao poder, tomá-lo como diria um adepto de Lenin. Como não me incluo mais entre eles, digo apenas que o PT e Lula se queimaram. Talvez valha aí uma comparação com o Movimento Solidariedade e Lech Walesa na Polônia.
Mesmo para aplicar uma política de distribuição da renda, que interessa também aos setores mais avançados do capitalismo, os governos na era PT precisaram apelar para fórmulas como o Bolsa Família, com o odor nada agradável do paternalismo. Mesmo assim, a melhor distribuição da renda foi o ponto mais destacado das coalizões governamentais lideradas pelo PT.
Arrisco a dizer que teria sido melhor para o PT se Dilma tivesse perdido as eleições. Nos primeiros quatro anos, Dilma mostrou completa inabilidade em conduzir a maçaroca das composições partidárias do governo. Agia, e age, como peixe fora d’água, enquanto Lula, como ninguém, sabia surfar em qualquer onda. É preciso ser muito otimista para esperar que Dilma tenha um estalo e, da noite para o dia, aprenda as manhas que o poder exige.
Se Aécio tivesse vencido, é muito provável que teríamos hoje manifestações parecidas e invertidas. A esquerda estaria nas ruas, em massa, condenando as medidas de arrocho, talvez as mesmas, dado à conjuntura econômica que afeta os chamados países do BRIC. Tudo somado ao escândalo de propinas dentro da Petrobrás e que só agora está sendo investigado.
De qualquer modo, a História não tem se. E previsões são difíceis. No entanto, as maiores probabilidades é que a presidenta Dilma termine seu mandato como refém de partidos espúrios como o PMDB e, digo mais, não está excluída nem a participação do PSDB. Não é à toa que já no bojo das manifestações surgiram ideias do tipo de formação de um governo de salvação nacional com a composição das maiores forças políticas do País. Em qualquer das hipóteses, tudo indica que o PT dificilmente vai manter sua força política para ganhar as eleições presidências de 2018. Mesmo com Lula.
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