Rio de Janeiro, 24 de Março de 2026

O professor é herói

Por Mario Eugenio Saturno - Nada melhor que o Dia do Professor para fazer algumas ponderações. Não consigo imaginar nada pior nos dias de hoje do que a ignorância, a ausência de conhecimento. Talvez todos os males da humanidade residam aí. (Leia Mais)

Segunda, 16 de Outubro de 2006 às 05:53, por: CdB

Nada melhor que o Dia do Professor (15 de outubro) para fazer algumas ponderações. Não consigo imaginar nada pior nos dias de hoje do que a ignorância, a ausência de conhecimento. Talvez todos os males da humanidade residam aí.

E qual pode ser a causa? Ao que tudo indica é a deficiência na arte do ensino do conhecimento. Ser professor é exercer um sacerdócio. Um bom professor tem que amar a arte com paixão e ardor, fazer da profissão o ideal de sua vida, ver nos alunos não uma carga, mas um abismo que precisa ser preenchido com o saber.

A escola é a segunda família. Os professores nossos segundos pais, nossos exemplos adultos. As crianças convivem mais com professores do que com os próprios pais. Ter bons pais é importante, ter bons professores é fundamental. Reconheço em minha vida a presença dos meus professores e, às vezes, questiono-me sobre quem seria se tivesse maus professores.

O triste é a impotência, enquanto governos salvam banqueiros e usineiros amigos do rei, o ensino piora. O relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, divulgado recentemente, aponta que o Brasil piorou no item educação e ocupa o 93º lugar em grau de alfabetização. Ou seja, nada mais que 92 países, de um total de 175, estão em situação melhor que a nossa. Enquanto isso, segundo a ANDIFES, 56% dos alunos do ensino superior provêm das classes mais ricas (A e B) e, apenas, 3% é da classe mais pobre (E).

A deterioração do nosso ensino começou na década de 70 com a redução gradativa dos salários e a proliferação de escolas-fábrica de diplomas. Hoje, o salário de um professor do ensino básico é uma ofensa ao cidadão.

Minha verdadeira paixão é a pesquisa e o desenvolvimento, mas não se pensa nisso sem considerar o ensino. Que adianta saber para si? Minha primeira tentativa nessa área ocorreu cedo. Ainda era estudante em 1983, acreditava que a informática era importante para o desenvolvimento do país, assim, procurei a Diretora da Cultura de Catanduva e propus-me a ministrar um curso de computação gratuito. Vi que ela não acreditou no meu ideal. Desisti!

Fui professor na Faculdade de Taubaté e no Instituto Tecnológico da Aeronáutica de São José dos Campos. E, atualmente, sou professor em Catanduva no Instituto Municipal de Ensino Superior (FAFICA). Posso ver que os tempos atuais exigem um novo tipo de profissional professor. O jovem não tem perspectiva frente ao desemprego, salários baixos, mudança tecnológica extremamente rápida, liberdade excessiva, impunidade (reprovar um aluno é quase impossível), uma verdadeira crise social, jamais vista.

Cabe ao professor criar no jovem uma consciência existencial, para que ele se situe na família, sociedade, ensino e trabalho. O constante desenvolvimento tecnológico exige um profissional que tenha grande interesse em se reciclar. Cabe ao professor fazer o aluno aprender a aprender, como já queria Descarte. Ou seja, é preciso passar o conhecimento e ensinar onde e como deve ser encontrado.

Quem se propõe ao ensino, deve sê-lo na íntegra. Fico horrorizado ao saber de professores (em geral que têm como atividade principal alguma profissão liberal) que não ensinam os chamados "segredos" da profissão. Ora, se for professor que o seja de verdade.

Já uma pesquisa mostra a importância dos bons professores e funcionários da escola para se combater a violência. Pesquisadores da Universidade de Michigan confirmam que a presença de um único professor nas áreas onde ocorrem a maioria dos casos de violência é o suficiente para inibir.

A solução do problema educacional não deve ser institucional ou governamental mas da cidadania. Todos devem participar da discussão. Cabe ao professor a árdua tarefa de criar cidadãos conscientes da necessidade de um bom ensino e a todos nós a consciência de que sem escola e educação estaremos condenados a viver em um mundo-cão regido pela violência e o desrespeito à dignidade humana.

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