Rio de Janeiro, 06 de Outubro de 2026

O processo que iniciou com Humala, em dez chaves

Sexta, 29 de Julho de 2011 às 12:26, por: CdB

O processo que iniciou com Humala, em dez chavesA orientação política de Humala e sua futura orientação diplomática reforça o eixo Brasil-Argentina que dá solidez à convivência entre regimes de orientação distinta e impulsiona as mudanças, cada uma com seus temperos nacionais, na Venezuela, Uruguai, Equador, Bolívia e Paraguai. Ao Brasil, em particular, garante por cinco anos a presença de um governo amigo no país através do qual, cada vez mais, as exportações brasileiras cruzam em direção ao Pacífico. O artigo é de Martín Granovsky.

Martín Granovsky – Página/12

Com um sol inabitual (um dia humalista?) e um sorriso que não cabia em seu rosto, Ollanta Humala começou muito solto a cerimônia de posse. Na dedicatória, mencionou sua família e especialmente duas pessoas. “A meu pai que me formou”, foi seu reconhecimento a Isaac Humala, um indigenista radicalizado, de cujas ideias etnocaceristas, no entanto, o novo presidente peruano disse várias vezes não compartilhar. “E a meu filho Sammy, que está aí descansando, se é que não vai acordar com o barulho”. O bebê, seu filho menor, dormia. Algum dia, um tio contará a ele que o dia 28 de julho de 2011 foi, também, um símbolo: o discurso social de posse de Humala esteve repleto de promessas de cuidado com as crianças no Peru, especialmente as mais pobres; promessas de alimentação na escola, de condenação aos maus tratos e do assassinato de mulheres.

Seguem dez chaves do processo político que iniciou ontem (28), 190 anos depois de José de San Martín ter declarado a independência peruana:

[1] Humala reafirmou seu compromisso de campanha de instaurar um fundo extra formado com os lucros extraordinários da mineração, aproveitando a situação muito favorável do mercado mundial de cobre, zinco e ouro. Ele disse textualmente: “Os lucros extraordinários das empresas mineradoras devem contribuir para o esforço nacional de combate à pobreza. Os contratos serão respeitados e a negociação permitirá, não duvido – repito: não duvido -, que esses lucros beneficiem o país. Nisso vai minha palavra de compromisso com o povo peruano”. As palavras indicariam uma negociação imediata, aproveitando a popularidade de que todo presidente goza nos primeiros meses de mandato.

[2] Ele colocou números para o aumento do salário mínimo (hoje de 600 sóis), uma das chaves de sua maioria entre os peruanos pobres. Serão 75 sóis este ano (cerca de 30 dólares) e 75 em 2012.

[3] Descartou fantasmas, sem nomeá-los. Talvez tenha tentado rechaçar a fantasia de que repetirá a experiência venezuelana quando disse que “nossa vontade não é a de copiar modelos, mas sim de criar um modelo peruano de crescimento com estabilidade, democracia e inclusão social”. E acrescentou neste ponto: “Como dizia o amauta José Carlos Mariátegui, não haverá imitação nem cópia, mas sim criação heroica”. “Amauta”, para os incas, significava “professor”, “mestre”. Um dos grandes intelectuais latino-americanos, Mariátegui foi o fundador do Partido Comunista peruano. Marxista de mente aberta, sem seus Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana, de 1928, desenvolveu um pensamento destinado a se fortalecer na América Latina: vinculou a questão indígena com a questão social e camponesa. “Os campesinos do Peru e os pobres do campo serão prioridade”, disse em um trecho dos 50 minutos de sua mensagem.

[4] Ao contrário do presidente que deixava o cargo, Alan García, ausente ontem por medo das vaias, que idealizou o Arco do Pacífico junto com países de governos mais conservadores como México, Colômbia e Chile, Humala disse que “a integração no marco da Unasul e da Comunidade Andina de Nações será a linha principal de ação”. Colômbia e Chile integram a Unasul, mas o peso maior é de Argentina e Brasil. O Arco, em troca, é uma forma de maior aproximação com os Estados Unidos. Humala disse que cumpriria os pactos e acordos firmados, uma provável alusão aos tratados vigentes de livre comércio, por exemplo com Washington. Falou de uma “solução pacífica” para resolver a diferença marítima com o Chile, hoje sob análise do Tribunal de Haya e enfatizou a ideia sulamericana com duas frases: “Nossa independência sempre foi um processo regional” e “San Martín e Bolívar foram precursores da união de hoje”.

[5] A orientação política de Humala e sua futura orientação diplomática reforça o eixo Brasil-Argentina que dá solidez à convivência entre regimes de orientação distinta e impulsiona as mudanças, cada uma com seus temperos nacionais, na Venezuela, Uruguai, Equador, Bolívia e Paraguai. Ao Brasil, em particular, garante por cinco anos a presença de um governo amigo no país através do qual, cada vez mais, as exportações brasileiras cruzam em direção ao Pacífico.

[6] Humala não só citou a Mariátegui. Em um jogo de identidade ou sedução, talvez ambas as coisas ao mesmo tempo, resgatou várias figuras. O presidente Víctor Belaúnde, que em 1914 disse “Queremos pátria!” como uma forma de resumir seu projeto de integração social e multicultural. O historiador americanista Jorge Basadre, que em 1931 escreveu sobre completar a formação histórica do Peru. E Vicotr Raúl Haya de la Torre (1875-1979), o fundador da Aliança Popular Revolucionária Americana. O líder sul-africano Nelson Mandela também foi citado: “Mandela afirmou na Unesco que a igualdade, a equidade e ajustiça social eram a base de toda democracia. Por isso jurei defender a democracia”.

[7] Humala formou um gabinete diverso, coerente com a concertação que prometeu para ganhar no segundo turno, quando obteve os votos de Alejandro Toeldo e de Mario Vargas Llosa, e para governar sem problemas. Terá uma grande peso no governo o presidente do Conselho de Ministros, Salomón Lerner, um empresário, político e dirigente da comunidade judaica que começou como um jovem funcionário do general Juan Velazco Alvarado, no final dos anos 60. Neste perfil, inscreve-se também o novo chanceler, Rafael Roncagliolo, um sociólogo e jornalista reconhecido por sua capacidade de diálogo que resultou numa indicação inesperada até para um amigo seu da Argentina, o embaixador no Peru, Darío Alessandro.

[8] Ensaiou uma provocação light. Jurou invocando a Constituição de 1979. Não é a que rege o país atualmente. A vigente é aquela promulgada por Alberto Fujimori, em 1993, após um autogolpe com consenso popular. Resgatar politicamente a Constituição de 1979 (um texto humanista, com forte acento nos direitos sociais e nas liberdades individuais) foi um modo de distanciar-se ainda mais do fujimorismo e de assinalar uma identidade própria.

[9] Resumiu suas ideias nestas palavras que pronunciou na sequência: “Reforma, democracia, liberdades, inclusão, segurança, paz com justiça, transparência, soberania e concertação”.

[10] Ao mesmo tempo em que prometeu reciclar produtores hoje ilegais e afirmou que “não legalizaremos nenhum tipo de droga, nem de cultivos ilícitos”, anunciou que encabeçaria pessoalmente dois conselhos. Um sobre segurança e combate ao crime. Outro, para o desenvolvimento do que chamou não “economia social de mercado”, mas sim “economia nacional de mercado”.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer


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