"Sofremos uma grande derrota. Chegamos ao governo e produzimos decisões políticas e traições programáticas que agora chamamos de erros. Mas errar é tentar achar um caminho. O que ocorreu foram escolhas que resultaram num acontecimento histórico brutalmente trágico". As declarações são de um petista histórico, o deputado estadual Flavio Koutzii (RS), em entrevista publicada no jornal Zero Hora (15 de abril de 2006). Ex-preso político torturado pela ditadura argentina (foi militante do Partido Revolucionário dos Trabalhadores - Exército Revolucionário do Povo, na Argentina), Koutzii é fundador do PT, foi chefe da Casa Civil do governo Olívio Dutra e é parlamentar em seu quarto mandato consecutivo. Na entrevista em questão, ele fala dos motivos que o levaram a tomar uma decisão drástica: não disputar a reeleição para a Assembléia Legislativa gaúcha e trabalhar para não deixar cair no esquecimento os acontecimentos que ajudaram a alimentar a crise política, envolvendo importantes dirigentes partidários.
Um gesto que calou fundo no PT e provocou algumas críticas de companheiros de legenda. As críticas obedecem a uma lógica que tem lá sua racionalidade, uma racionalidade de cunho pragmático que consiste em dizer que o PT está sob pesado ataque da direita brasileira e que não é hora de fazer ajustes de contas internos. Koutzii discorda frontalmente dessa lógica: "A situação é tão trágica que só há duas saídas: ou a direção nacional atua fortemente ou fica uma coisa morna, a mesma que nos trouxe até aqui. A primeira oportunidade de agir havia sido a eleição interna, em outubro. A casa havia caído, assuntos graves estavam na agenda e os petistas foram votar. Mas qual foi o resultado? Uma modificação na correlação de forças insuficiente para dar um novo rumo para o PT". O PT, na avaliação de Koutzii, "está num processo de mutação genética para pior". "Seria importante enfrentar a dor, mexer e consertar as coisas para reacender a chama da esperança", acrescenta.
Um dilema real
Os temas levantados pelo deputado gaúcho constituem um dos dilemas que o PT enfrentará (ou não) no 13° Encontro Nacional do partido, que será realizado de 28 a 30 de abril, em São Paulo. Muita gente dentro do PT sustenta que esse não é o momento para se discutir a conduta de dirigentes dentro do partido, mas sim para priorizar as eleições de 2006 e a campanha para a reeleição de Lula. Há quem ache que simplesmente propor esse debate significa "fazer o jogo da direita", que voltou a falar em voz alta sobre a tese do impeachment. O dilema é real e complexo. Para petistas como Koutzii, a sobrevivência política do PT exige a recusa das vias do esquecimento, do "vamos fazer de conta que não aconteceu o que aconteceu" e de que tudo o que ocorreu é resultado da ação da direita e da grande mídia. Essa compreensão está intimamente ligada a sua decisão de não concorrer: "Estou tão revoltado que preciso de um tempo para analisar o quadro. O problema é que estamos entrando numa época eleitoral, na qual o domínio é do pragmatismo. Ou falo sobre o dilema dos nossos desafios ou prefiro calar a boca".
Ele não é o único a pensar assim. Um dia depois da entrevista ser publicada em ZH, o ex-ministro do Desenvolvimento Agrário e candidato ao Senado pelo PT do Rio Grande do Sul, Miguel Rossetto, disse ao jornal "Correio do Povo" que a direção nacional do partido precisa encaminhar à Comissão de Ética todos os dirigentes e deputados envolvidos em denúncias de corrupção, inclusive o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. Segundo ele, o partido tem obrigação de julgá-los, sob pena de todos os problemas que afetaram gravemente o governo Lula e o PT acabarem em segundo plano. Para Rossetto, o PT deve discutir as acusações para punir os culpados e conseguir defender os que não tiveram envolvimento. O ex-ministro considerou que as eleições deste ano, em todos os níveis, trazem um desafio fundamental aos petistas: "Teremos que