Rio de Janeiro, 16 de Fevereiro de 2026

O povo, a guerra e a paz de Portinari

Por Emir Sader} - Neste ano, cumprem-se 40 anos da inauguração dos painéis Guerra e Paz, de Candido Portinari, no prédio da ONU, em Nova York. Neste ano, cumprem-se 40 anos da inauguração dos painéis Guerra e Paz, de Candido Portinari, no prédio da ONU, em Nova York. (Leia Mais)

Terça, 11 de Setembro de 2007 às 11:51, por: CdB

Neste ano, cumprem-se 40 anos da inauguração dos painéis Guerra e Paz, de Candido Portinari, no prédio da ONU, em Nova York. Quadros que não puderam ser inaugurados pelo pintor brasileiro, que teve sua entrada nos EUA impedida por negação de visto de parte do governo estadunidense, sob acusação de “comunista”. Até hoje os quadros estão no Conselho de Segurança, sem identificação, a ponto que os guias não sabem indicar aos visitantes a autoria dos painéis. Este ano está prevista uma cerimônia que “inaugure” uma das obras primas do maior pintor brasileiro, 50 anos depois.

Este artigo celebra os quadros, mais do que atuais, de Portinari.

O POVO, A GUERRA E A PAZ DE PORTINARI

Desde que Portinari pensou na idéia dos painéis de guerra e paz, muitos canhões dispararam, muitos acordos de paz foram obtidos. Mas o que aconteceu com esses dois temas cruciais que têm cruzado toda a história da humanidade, desde então?

Quando pintava os painéis, Portinari pode conhecer o que seria o “pós-guerra”, depois daquela que foi praticamente uma única guerra – interimperialista – de 1914 a 1945. Chegada a paz, que mundo seria aquele?

Em 1967 o Che se referia a esse período:

"Já se cumpriram vinte e um anos desde o fim da última conflagração mundial e diversas publicações, em infinidade de idiomas, celebram o acontecimento simbolizado pela derrota do Japão. Há um clima de aparente otimismo em muitos setores dos distintos campos em que o campo se divide.”

“Vinte e um anos sem guerra mundial, nestes tempos de confrontrações máximas, de choques violentos e mudanças repentinas, parecem uma cifra muito alta. Mas, sem analisar os resultados práticos dessa paz pela que todos nos manifestamos dispostos a lutar (a miséria, a degradação, a exploração cada vez maior de enormes setores do mundo) é preciso perguntar-nos se ela é real.”

Enquanto Portinari escolhia o tema dos seus painéis e começava a ideá-los, segundo o Che:

Na Coréia, “depois de anos de luta feroz, a parte norte do país ficou submetida à mais horrível devastação que figure nos anais da guerra moderna; devastada por bombas; sem fábricas, escolas ou hospitas; sem nenhum tipo de casa para abrigar a dez milhões de habitantes.”

“No outro lado, o exército e o povo da Coréia e os voluntários da República Popular da China contaram com o abastecimento e a assessoria do aparato militar soviético. Por parte dos estadunidenses foram feitos todos os tipos de provas de armas de destruição, excluindo as termonucleares, mas incluindo as bacteriológicas e as químicas, em escala limitada. No Vietnã, se sucederam ações bélicas, sustentadas pelas forças patrióticas desse país quase ininterruptamente contra três potências imperialistas: o Japão, cujo poderio havia sofrido uma queda vertical a partir das bombas de Hiroshima e Nagasaki; a França, que recupera daquele país vencido suas colônias indochinesas e ignorava as promessas feitas em momentos difíceis; e os EUA, nesta última fase da luta.”

E concluia o Che:

“Tudo parece indicar que a paz, essa paz precária a que se deu esse nome, só porque não se produziu nenhuma conflagração de caráter mundial, está outra vez em perigo de ser rompida diante de qualquer passo irreversível e inaceitável, dado pelos estadunidenses.”

Os “tempos de paz” depois de 1945 representaram que os acordos de Yalta inviabilizavam as guerras nos países do centro do sistema – EUA, Europa, Japão. Estas continuavam a ser protagonizadas pelas grandes potncias imperiais, mas passavam a ter seus cenários na periferia do sistema: Ásia, África, América Latina, para os quais os tempos foram de guerra mais do que nunca.

Ficam claras, nesse cenário, as razões que levaram Portinari a - convidado, em 1950, a fazer os painéis -, tivesse escolhido o tema da guerra e da paz. Consciente politicamente do período que a humanidade passava a enfrentar, apesar do fim do conflito mundial, um

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