Em 1953, recém-chegado à cena federal, Tancredo Neves viu à sua frente uma casca de banana. Como vice-líder do governo, recebeu árdua incumbência do líder Gustavo Capanema: sustentar um veto de Vargas a uma lei, aprovada por folgada maioria. Tratava-se da manobra (mais tarde consumada) para transformar a Baixada Fluminense, então ocupada por pequenos horticultores, em subúrbio residencial, para o benefício dos especuladores. As terras haviam sido, originalmente, da União, que as destinara a um "cinturão verde" ao lado da capital, e eram inalienáveis para outros fins.
Foi a sua competência política, na articulação da ratificação parlamentar ao veto, que o credenciou junto a Vargas, para ocupar o Ministério da Justiça naqueles meses tumultuados. No governo, Tancredo trabalhou em sua idéia de consolidar a aliança entre o PSD e o PTB, criado por Vargas. Essa aliança surgira naturalmente nas eleições de 1950, quando, em lugar de votar no candidato do partido, Cristiano Machado, os eleitores do PSD votaram maciçamente em Getúlio. É desse episódio que surgiu, no léxico político brasileiro, o verbo "cristianizar".
Tancredo entendia que ao PTB faltava o senso político dos pessedistas, e ao PSD - partido da classe média - o apoio das massas trabalhadoras. Era, já naquele tempo, a procura do centro-esquerda. Essa aliança se formalizou no apoio a Vargas, enquanto governou, em seu período constitucional, e a ele sobreviveu, para eleger Juscelino e Jango. No cerco que Lacerda e os senhorões da elite reacionária (que usavam a coragem e o verbo do jornalista fluminense contra o projeto nacional de desenvolvimento), Tancredo se destacou, pela coragem de propor a resistência armada ao golpe. Na noite de 23 para 24 de agosto sugeriu, sem meias palavras, que o governo usasse de toda a força, para reduzir os inssurrectos do Galeão, prender os oficiais indisciplinados e, mediante o estado de sítio, restaurar a plena autoridade presidencial. Mas, naquele momento, o Ministro da Guerra, Zenóbio da Costa, já se encontrava comprometido com os golpistas. Faltaram ao general a bravura e a lealdade do jovem ministro civil.
A biografia de Tancredo é uma biografia da coragem, e a coragem é a mais exigida das virtudes políticas. Mas a coragem, como patrimônio moral, não se deve desgastar em gestos menores, em bravatas inconseqüentes. Ela deve ser usada nos momentos certos. Aquele era um momento certo. Outro momento certo surgiu no ano seguinte, quando as forças reacionárias - sempre sob as arengas do "camelot de la droite" - Carlos Lacerda, quiseram impedir primeiro a candidatura de Juscelino e, em seguida à vitória eleitoral, a posse, sob o argumento de que ele não tivera a maioria absoluta dos votos. A tese, bem se sabe, era absolutamente inconstitucional e já fora levantada contra Vargas, cinco anos antes. Coube a Tancredo - ao contrário do que afirma um pobre romancista, que viveu sob a sombra de Juscelino, quando poderoso, e hoje escarra sobre sua memória - sugerir ao candidato Juscelino a frase famosa, usada pelos primeiros cristãos, de que Deus o poupara do sentimento do medo, que tanta repercussão teve na época, e anunciou aos golpistas que o candidato de Minas estava preparado para o combate. Em 11 de novembro de 1955, Tancredo esteve ao lado de Juscelino e do governador Clóvis Salgado, na articulação das forças mineiras que se prepararam para apoiar o general Lott.
A coragem e a lealdade de Tancredo não o impediam de ver o processo político com lucidez. Foi assim que tentou moderar os exageros verbais dos correligionários de Jango, naqueles meses que antecederam ao golpe de 1964. Ele sabia que as forças armadas brasileiras eram predominantemente conservadoras, e que se negariam a apoiar Jango em um confronto com seus opositores. Procurou, por isso mesmo, preservar as instituições. Foi assim que agiu, naquela noite em que Auro de Moura Andrade, violando a Constituição, consumou o golpe de Estado, ao declarar vaga a