Rio de Janeiro, 08 de Agosto de 2026

O poder da internet em defesa de sua cidadania

Por Hugo R. C. Souza - Cidadania na internet significa defender o próprio bolso? Desde a semana passada circula pela rede um "novo protesto nacional": "Desligue seu celular no final de semana, 05 e 06 de julho de 2003". (Leia Mais)

Terça, 01 de Julho de 2003 às 15:32, por: CdB

Cidadania na internet significa defender o próprio bolso? Desde a semana passada circula pela rede um "novo protesto nacional": "Desligue seu celular no final de semana, 05 e 06 de julho de 2003". A corrente se dirige a todos os usuários de celulares - e da internet, claro - que se sentem lesados por elevadas tarifas cobradas pelas operadoras de telefonia. O protesto circula no momento em que estas mesmas operadoras, de contratos em punho, anunciam aumentos expressivos nas contas dos usuários de seus serviços. A estratégia consiste exatamente naquilo expresso no enunciado: uma "greve" de dois dias em protesto contra os recentes aumentos, justificados pela Anatel e lamentados pelo ministro das Comunicações, Miro Teixeira. Os usuários (consumidores? Cidadãos? Internautas?) devem desligar seus aparelhos no fim de semana especificado, a fim de forçar as operadoras a baixarem as tarifas "em até 50%". O mail destaca que "reivindicar um preço justo é um direito legítimo do cidadão", e pontua que o protesto é "sadio e pacífico", porque "não penaliza indiscriminadamente outras pessoas nem outras áreas do mercado". O autor, não identificado, enumera algumas ações semelhantes que se mostraram bem sucedidas em países como Argentina e Estados Unidos. Mas não é preciso ir muito longe para observar que a prática não é novidade. Recentemente, milhares de internautas receberam em suas caixas-postais uma corrente semelhante, igualmente reivindicando "o poder da internet em defesa de sua cidadania". Tratava-se de uma campanha contra os altos preços dos combustíveis cobrados pelos postos BR. Convocava os usuários (consumidores? Cidadãos? Motoristas?) a boicotarem aqueles postos, deixando de parar neles para abastecer. A queda do preço nos postos BR derrubaria os valores também nos outros postos, e assim os internautas teriam interferido diretamente na mencionada "lei de oferta e procura". Igualmente, não estava assinado, e até hoje não se sabe se partiu de um diligente cidadão, endividado consumidor, aplicado funcionário do Procon ou mesmo do dono de algum posto concorrente. Não se tem notícia de ter alcançado o resultado esperado, ou seja, redução do preço dos combustíveis. Mais relevante do que levantar dúvidas acerca da eficácia de tais iniciativas talvez seja tentar compreender seu significado. O "novo protesto nacional" afirma que os elevados ganhos das operadoras de telefonia celular no Brasil acontecem "graças ao fato de não termos hábito de movimentos populares", e que "só uma ação consciente e conjunta poderá começar a mudar as coisas no país". O autor também aconselha que, "ao reenviar a mensagem, a orientação é que se apague o nome das pessoas que a enviaram, para que a campanha não sofra baixas por medo de represálias, já que contraria interesses econômicos de grandes empresas". A idéia de união em torno de uma causa conjunta e o tom subversivo na referência ao temor de represálias, junto ao título em caixa-alta que fecha a mensagem - "O benefício será de todos" - remetem para a noção de cidadania, palavra mencionada na mensagem e tão apregoada nos dias de hoje por determinados sociólogos e meios de comunicação. Em um mundo onde cada vez mais os conceitos de "cidadão" e "consumidor" parecem caminhar para uma unificação, a luta pelo consumo parece levar vantagem sobre a construção de uma verdadeira cidadania. O apelo internético pelo desligamento dos celulares parece discorrer nesse sentido: "Tome por hábito se engajar em campanhas que visem a melhorar o nosso padrão de vida". Caixas-postais do Brasil afora ainda não receberam incitação a um movimento para além das caixas-postais, para além da defesa de preços aceitáveis de serviços utilizados pela classe média. Algo que ultrapasse o objetivo de "melhorar nosso padrão de vida" e tente buscar maneiras de participação política que não se limitem ao comparecimento regular às urnas, meios de interferir de forma cotidiana nas decisõe

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