Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

O pescador impulsivo e radical

Quinta, 30 de Junho de 2011 às 10:40, por: CdB

A festa de São Pedro Apóstolo, no dia 29 de junho,representa uma boa ocasião para re-visitar e contemplar essa figura ímpar àqual o Novo Testamento dá lugar de destaque: Simão bar Jonas, ou Simão filho deJoão, pescador que teve seu nome mudado pelo carpinteiro Galileu que faziamilagres e seduzia multidões.

"Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedraedificarei a minha Igreja”. Assim reportam os evangelhos sinóticos as palavrasde Jesus de Nazaré a Simão, filho de João, que o confessara como Messias eFilho de Deus quando perguntado pela identidade do Mestre que seguia compaixão. Recebendo um nome e uma missão maiores que ele mesmo, Simão Pedro estaráà frente do grupo de seguidores do nazareno crucificado e fará a primeirainterpretação pública de sua ressurreição no evento de Pentecostes.

Até chegar ali, o itinerário de Simão, foi tudo menostranquilo. Em um dia aziago de pesca inexistente, ele já guardava suas redesquando aquele homem irrompeu em sua vida e subiu em seu barco. A abundância dapescaria, que antes se negava a suas mãos experientes e calosas, perfurou-lheos olhos e o espírito, fazendo-o prostrar-se e reconhecer-se indigno daquelesinal. O Galileu de olhos e palavra irresistíveis prometera fazê-lo pescador dehomens. E Pedro deixara para trás seu meio de vida, sua família, para segui-loem seu caminho errante e perigoso.

Quanto amava aquele Mestre desconcertante e sempre imprevisível!Mas ao mesmo tempo quanto ele o deixava perplexo e mesmo indignado às vezes.Pois não haviam ele e os outros deixado tudo para segui-lo? E não receberiamnada em troca? Não estavam dispostos a protegê-lo e cuidar sua vida? Então, porque ele se expunha daquela maneira e a todos que o acompanhavam? E Pedroperguntava sem cessar e se agitava, mas quando Jesus serenamente lhe abria aporta de saída, a fim de deixá-lo livre para afastar-se, era obrigado aconfessar que não podia fazê-lo, pois só dos lábios do Mestre saíam as palavrasda verdadeira vida.

Quando o cerco apertou em torno do Mestre, Simão Pedro fezbravatas, puxou espada, cortou orelhas de soldado e teve que ser repreendidopor Aquele que, traído, não retribuía violência com violência. Mas quando olevaram teve medo, muito medo. E perguntado se o conhecia, negou. Traiu uma,duas, três vezes o Mestre amado para depois chorar amargamente dearrependimento. Escondeu-se apavorado quando Jesus morreu junto com outros. Esó a fala exaltada das mulheres, que afirmavam ter visto Jesus vivo,convenceu-o a sair de casa e conferir o túmulo vazio, recebendo depois a visitado Ressuscitado em pessoa.

De frágil e medroso, Pedro passou a ser o corajoso líder dogrupo sempre mais numeroso de homens e mulheres que espalhavam pelo mundo a BoaNotícia da vitória de Jesus sobre a morte. Interrogado pelo próprioRessuscitado sobre seu amor, foi-lhe dada a chance de declarar por três vezesseu amor incondicional ao mesmo Jesus que antes por três vezes negara. A este homeminstável e tão enternecedoramente humano Jesus confiou sua Igreja, seu amadorebanho mandando que dele cuidasse e a ele apascentasse.

A isso Pedro dedicou o resto de sua vida. Pescador de homense timoneiro da barca do Senhor, singrou resoluta e valentemente os perigososcaminhos dos começos do Cristianismo, quando o anúncio da Boa Nova e otestemunho de Jesus significavam ameaça, prisão e morte certa.

O pescador convertido em apóstolo não escapou ao destino detantos irmãos e irmãs de fé. Morreu crucificado em Roma, seguidor fiel doMestre por quem – depois de tantas idas, vindas e descaminhos – finalmenteentregou sua vida sem retorno. Seus sucessores à frente do rebanho de JesusCristo foram, ao longo da história, chamados ao mesmo ofício de anunciar a BoaNotícia e zelar sobre a comunidade dos seguidores de Jesus. Também a eles foi eé pedida a fidelidade radical e o testemunho de amor total diante das ovelhasque devem apascentar e frente a um mundo muitas vezes hostil à mensagem doEvangelho.

Como Pedro, frágeis, nem sempre fiéis, tantas vezestemerosos, os Papas foram e são chamados a assumir a missão que os ultrapassa:estar à frente do rebanho do Senhor e ser sinais visíveis de sua presença emmeio ao mundo. A figura do pescador impulsivo e radical os inspira e encoraja.Como ele, confiam na promessa do próprio Senhor de que não deixará as portas doInferno prevalecerem sobre sua Igreja.

[Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça quehabita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros.
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