Rio de Janeiro, 06 de Setembro de 2026

O perigo mora ao lado

Sexta, 27 de Maio de 2011 às 00:10, por: CdB

Por Ingrid de Andrade 27/05/2011 às 00:10

Moradores de áreas de risco da capital contam apenas com a sorte nos períodos de chuva


Lama e lixo acumulam atrás das moradias no bairro Nordeste.


Márcio Damasceno mostra o que resta do quintal de sua casa. As plantas sustentam


Ponte de madeira é o único acesso à casa de taipa ilhada.


Cosma Campos e os poucos moradores de sua ?ilha? à margem do rio Potengi.

Para quem não está seguro nem dentro de casa, os dias chuvosos são apreensivos. Com 70 pontos de alagamento ou com risco de desabamento em Natal, capital do Rio Grande do Norte, não é difícil achar pela cidade pessoas colocando a vida em risco enquanto descansam em seus lares. O perigo está onde pisam. Periferias como o bairro Nordeste e a Favela do Mosquito, na Zona Oeste, resistem à correnteza das águas, que desce as íngremes ladeiras da primeira para empossar nos humildes quintais da comunidade vizinha. Ao passar a chuva o resultado é o mesmo nos dois locais: muita lama e lixo.

A água da chuva entra pela porta da frente e sai pela de trás, destruindo aos poucos o que resta da área de serviço da casa de dona Ivaneide Damasceno, de 55 anos. É preciso colocar barreiras na porta para impedir o avanço da correnteza. ?O muro lá de trás já se foi em outra chuva, junto com o do vizinho. Minha sorte é que tem um pé de manga que ainda segura o resto da casa?, conta a doméstica que, sem esperanças, só espera que o pior não aconteça. ?Todo mundo aqui corre perigo. Qualquer chuva que dá a preocupação é grande. E depois dá rato demais por causa do lixo que desce?.

Na rua de dona Ivaneide, no bairro Nordeste, apesar do alarme ainda não aconteceu nenhum acidente grave por causa de desabamento, apesar dos quintais terem vista para um precipício, que acumula lixo e lama antes de chegar ao asfalto. Alguns dos seus vizinhos, na tentativa de aumentar a segurança do chão em que pisam, colocaram metralha e grandes pedras para evitar o desmoronamento. O empenho dos moradores para não verem seus lares escorrendo ladeira abaixo lembra o do pássaro João-de-barro na construção do ninho. Mas os que não disponibilizam de recursos financeiros para tais reformas contam apenas com a sorte.

?Minha avó é idosa, tem 75 anos, e a gente tem o maior cuidado quando ela vai pendurar roupa lá atrás?, conta Márcio Damasceno, 23 anos, filho de dona Ivaneide. Ele mostra com tristeza o chão do quintal que cai pedaço a pedaço a cada chuva. Na lista de quem a família já procurou para pedir auxílio está o Conselho Comunitário do bairro, a Prefeitura e até o deputado Luiz Almir. ?Eles ficam de vir, mas ninguém veio aqui. Não adianta só a gente reclamar, tem que ir a população toda?, propõe dona Ivaneide.

Já para Cosma Campos, 40 anos, dos quais há 15 mora em um tipo de ilha à margem do rio Potengi, nas proximidades da Favela do Mosquito, a chuva traz lixo para a porta de casa. O fato parece não a preocupar. Diante das condições em que vive, só pensa no dia em que será finalmente retirada do local. Para pisar no solo teoricamente firme em que foi construída sua casa de taipa, Cosma atravessa uma ponte feita com pedaços de madeira que balançam ao menor movimento. Quando chove e a maré está cheia, a água do rio fica rente à ponte, que serve de playground para as crianças filhas dos poucos vizinhos. A água é opaca e o lixo fica preso nas estruturas de madeira. Mas nada disso impede as crianças de correrem de um lado para o outro sobre a ponte que faz suar frio aos que tentam atravessá-la pela primeira vez.

A água do rio nunca invadiu a casa em que Cosma mora com seu marido e mais quatro cachorros, que fazem a segurança da ?ilha? do casal. ?A gente só tem que colocar umas madeiras porque a maré vai comendo as beiradas do terreno?, conta. Ela diz que já foram na Prefeitura e em canais de televisão para expor seu caso. Funcionários do Ibama estiveram no local para ver as condições da casa que também fica vizinha a um pedaço de mangue, não totalmente devastado. Foi prometido à família que eles seriam retirados do local e teriam, enfim, uma casa em solo firme. Mais uma vez, só promessas.

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