Por Denis Lerrer Rosenfield 30/05/2011 às 10:07
Neste processo, chama particularmente atenção a presença de várias ONGS e de "movimentos sociais" que, em nome de uma suposta defesa da natureza, obedecem a interesses dos mais diferentes tipos, desde interesses de governos estrangeiros e empresas internacionais
Adiscussão em torno da revisão do Código Florestal faz comparecer na cena pública um número expressivo de atores, organizados segundo os mais diferentes interesses particulares.
Neste processo, chama particularmente atenção a presença de várias ONGS e de "movimentos sociais" que, em nome de uma suposta defesa da natureza, obedecem a interesses dos mais diferentes tipos, desde interesses de governos estrangeiros e empresas internacionais até propostas socialistas de eliminação da econômica de mercado e do estado de direito.
A situação não deixa de ser paradoxal, mas nem por isso é menos real. Uma amostra particularmente eloquente desta situação se encontra na Cartilha do Código Florestal, publicada pela WWF-Brasil, uma ONG que se tornou mundialmente conhecida pela defesa dos ursos pandas, até hoje o seu símbolo.
A cartilha é composta de 20 páginas, muito bem diagramada, em um trabalho propriamente profissional. Seu objetivo é didático, tendo como finalidade facilitar a compreensão do leitor. Não hesita, neste sentido, a ocultar fatos que lhe sejam desfavoráveis, nem em distorcer o que está acontecendo. Por exemplo, coloca a questão da revisão do Código Florestal como coisa de "ruralistas", quando é corrente em Brasília que essa proposta conta com o apoio de deputados da base governamental.
A própria relatoria do deputado Aldo Rebelo, do PCdoB, é um exemplo disso.
Tampouco nada é dito a propósito do que esse relatório veicula em sua proposta: o desmatamento zero para os próximos cinco anos. Neste meio tempo, novas medidas seriam progressivamente adotadas, tanto no âmbito federal, quanto estadual. Observe-se a falsa oposição que se procura criar entre "ruralistas" e "ambientalistas"? os primeiros representando o "mal" e os segundos, o "bem".
Um dado relevante da cartilha está na coordenação que ela exibe no trabalho de duas ONGS internacionais, o próprio WWF e o Greenpeace. Com efeito, as fotos utilizadas na cartilha são produzidas pelo Greenpeace, segundo consta em pé de página.
Há uma parceria efetiva entre essas duas ONGS.
Se consultarmos os seus respectivos sites, observaremos que as matérias são frequentemente semelhantes, sobretudo no que diz respeito ao Código Florestal, à construção da usina de Belo Monte e ao acordo assinado em dezembro do ano passado entre o Greenpeace, a ABIOVI e o Banco do Brasil ? comprometendo a soberania nacional na concessão de créditos, que passariam a ser monitoradas por essa ONG. As matérias publicadas se remetem reciprocamente, o que se traduz, no caso da cartilha em questão, pelo uso de fotos.
O objetivo dessas ONGS é que elas venham efetivamente a funcionar como certificadoras ambientais em âmbito internacional. Elas concederiam "selos ambientais" do politicamente correto. As grandes empresas de comercialização do agronegócio teriam, então, um aumento de seus lucros, via aumento "ambiental" do valor de seus produtos, um tipo de valor agregado, enquanto as ONGS aumentariam o seu caixa, via contribuições dos mais diferentes tipos. Diferentes interesses estariam, assim, satisfeitos.
Na coordenação dos distintos interesses particulares, a Cartilha ainda mostra um outro ator político, desta feita situado à extrema esquerda do espectro político. Enquanto no primeiro grupo temos interesses de ONGS, empresas internacionais e governos estrangeiros, defendendo o capitalismo à sua maneira, no segundo grupo encontramos os mais ferrenhos adversários do capitalismo. A confluência não deixa de ser significativa.
É interessante observar que a Cartilha cita como fonte de autoridade os "movimentos sociais", para descaracterizar o apoio de trabalhadores da agricultura familiar a essa revisão do Código Florestal, além de induzir a erro a identificação entre agricultura familiar e assentamentos da reforma agrária. Os movimentos sociais citados são: CPT (Comissão Pastoral da Terra), CUT (Central Única dos Trabalhadores), Fetraf (Federação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura Familiar), MAB (Movimento dos Atingidos pelas Barragens), MST (Movimento dos Sem-Terra) e Via Campesina. Na verdade, o MST e a CUT sob distintas roupagens.
O agricultor familiar possui título de propriedade e pertence, nos casos mais bem sucedidos, à cadeia do agronegócio, via sistema integrado de produção, e comercializa livremente os seus produtos no mercado. O assentado da reforma agrária não tem título de propriedade, vive de subvenções do governo como o bolsa família e deve, por imposição do Incra e do MST, viver da auto-subsistência. Não pode, por exemplo, plantar eucalipto e vendê-lo, pois isto contraria a noção de "agricultura camponesa".
Ademais, o documento não menciona que o relatório do deputado Aldo Rebelo conta com o apoio de diferentes FETAGS (Federação dos Trabalhadores da Agricultura). Curiosamente, as "fontes" da WWF são os "movimentos sociais", orientados pela Teologia da Libertação, ou seja, o marxismo sob roupagem cristã, que procuram abolir o direito de propriedade e se posicionam contra a economia de mercado.
Suas autoridades são os que invadem as propriedades rurais e se colocam contra o agronegócio.
A afinidade da WWF é com os grupos mais à esquerda do espectro político. Note-se que não há nenhuma menção à destruição ambiental nos assentamentos da reforma agrária, controlados pelo MST.
No entanto, a WWF é financiada por grandes empresas e, mesmo, por governos estrangeiros. Eis uma lista, não exaustiva, de alguns desses grupos. Entre os seus apoiadores e financiadores (os dados foram extraídos de sua Prestação de Contas de 2009), destacam-se a Rede WWF internacional, Comissão Européia, o Banco HSBC, ItaúBBA, Amex, Ibope, Natura, Wallmart, Conservation Internacional, Embaixada dos Países Baixos, Greenpeace e ISA (Instituto Socioambiental).
Como se resolve esse paradoxo, se não pelo fato de várias empresas e governos estrangeiros estarem interessados em prejudicar o agronegócio brasileiro, via redução de sua produtividade e criação de insegurança jurídica?
URL:: http://www.midiaamais.com.br/ambientalismo/5410-denis-lerrer-rosenfield