Berlim, Alexanderplatz: o enorme espaço vazio da praça nem de longe lembra o agitado bairro judeu, cheio de "átomos humanos", como descreve o crítico Karl August Horst, que povoa o famoso romance de mesmo nome de Alfred Döblin. Os "átomos humanos" que percorrem a praça e seus arredores - a avenida Unter den Linden, as margens do rio Spree, a ilha dos museus - são outros em relação aos da cidade descrita por Döblin, com suas multidões buscando freneticamente a sobrevivência na duríssima Alemanha dos anos 20 do século passado.
É domingo pelo meio dia, e a temperatura tépida para um final de novembro - 15 graus - choca os berlinenses. Eles também comentam, agitados, sobre "aquecimento global", "efeito estufa" etc. Mas na luz mortiça desse meio dia de outono a multidão que se agita na Berlim vertiginosamente reunificada é composta por turistas - um grande número de italianos -, por berlinenses que vêm aqui passear e pelos vendedores de livros, artesanatos, antiguidades e quinquilharias de todo o tipo. Há também barracas que imitam cabanas rústicas entre os prédios tradicionais - a Staatsoper, o Museu de História, o antigo Monumento ao Soldado Desconhecido, hoje dedicado às vítimas de todas as repressões - onde se vendem produtos natalinos: velas, carrosséis que funcionam com o calor das lâmpadas, surpreendentes brinquedos de papel e madeira em meio à avalanche de mesmices que recobrem as prateleiras tradicionais dos supermercados.
De certo modo, como em 20, mas sem tanta miséria, é uma multidão em busca de sobrevivências. Como em outras partes do mundo, em Berlim, o "cuentapropismo" também tomou conta de avenidas e praças, o "vira-te por ti mesmo", que vai desde vender as quinquilharias familiares até produzir o que seja por conta própria para oferecer aos turistas ávidos por lembranças originais, diferentes das canequinhas e blusas e bolsas que hoje são iguais em toda parte, só variando o dístico: I love não sei o quê.
Há uma novidade em relação ao passado recente: em meio às barracas que vendem de tudo, agora há ofertas de pequenos jogos de azar. Visivelmente são, em geral, imigrantes que os oferecem, e são de um tipo especial: aqueles em que três canequinhas são dispostas num tabuleiro, e sob elas uma bolinha atrai o olhar do passante, que deve adivinhar onde ela está. Logo se vê que ali há o recurso tradicional nesse tipo de jogo: o "jogador amigo" que, disfarçado entre os transeuntes detidos pela bolinha mágica, "adivinha" onde ela está e assim anima os outros a também jogar.
Outra novidade: barquinhos de metal que, como os da minha infância, funcionam a vapor. Há modelos antigos e novos, refeitos. Nos tempos de antanho, no Brasil, chamavam-se "lanchas pop-pop", pelo ruído que faziam, imitando o motor de um barco tradicional. Encantam as crianças, e os adultos também, enfastiados daquela mesmice nos brinquedos a que antes me referi.
Também há os tradicionais pontos de venda com as sobras dos regimes comunistas do leste europeu: casacos militares, quépis, carros de brinquedo imitando o modelo Trabant, moedas, medalhas, estrelas vermelhas etc. Mas agora há uma novidade, que tem sua ironia: essas sobras históricas, transformadas na quintessência da quinquilharia, são oferecidas com a frase a encimá-las: "the best of communism", "o melhor do comunismo". Ao lado, uma outra palavra, sugerindo seu uso em práticas não ortodoxas, que fico imaginando quais possam ser: "Sexy!".
Indiferentes a tudo, na praça enorme, algo solitárias, as estátuas de Marx e Engels, o primeiro sentado e o segundo de pé, olham o espaço vazio. À sua frente, distante, outra sobrevivência do regime comunista: a gigantesca torre que domina a praça, atração turística maior da cidade, em cujas alturas paira um restaurante giratório. A torre contrasta com o campanário reluzente e novo da Mariankirche, a Igreja de Santa Maria, solitário prédio cujas paredes sobreviveram aos bombardeios que aniquilaram o