Rio de Janeiro, 11 de Setembro de 2026

O país mais moderno do mundo

Por Flávio Aguiar - Mais do que atuar nas forças de paz da ONU no Haiti, cabe ao Brasil liderar campanha internacional para corrigir séculos de desmandos. (Leia Mais)

Quinta, 11 de Março de 2004 às 07:21, por: CdB

Considerações necessárias para se entender o Haiti.

Conheço uma palavra que soa como asa
Ela provoca a vertigem da alegria
Ela ressuscita as horas imortais
Ela enfuna a vela de meu sonho
Ela fixa um brilho de amor no canto dos meus olhos

Conheço uma palavra que leva tudo o que senti
Minhas esperanças
Minha tristeza
Minhas noites e noites de conversas

Essa palavra dá sentido ao que senti
Ela explica a cor de minha pele

Essa palavra é o futuro para mim
É toda a loucura que vivi: Haiti

Este poema (a tradução é minha) é de René Depestre, um dos mais ilustres escritores haitianos de todos os tempos. Depestre é da geração e da estirpe dos Aimé Césaire, dos Senghor, dos Mário de Andrade (o angolano e o brasileiro), dos Solano Trindade, dos Fantz Fanon, dos CLR James, dos Agostinho Neto e Samora Machel, para apenas citar alguns. Comunista, esteve exilado durante muitos anos, e veio ao Brasil pelo menos uma vez.

Sua palavra poética pode exprimir a paixão que o Haiti representa. Para se entender ainda o Haiti três leituras são indispensáveis: o ensaio "Os Jacobinos Negros", de CLR James (Boitempo Editorial) e os romances "O Reino deste Mundo" e "O Século das Luzes", de Alejo Carpentier, ainda que no último o país faça apenas, digamos, "uma ponta".

Costumo dizer aos meus alunos que Portugal e o Haiti são os países mais modernos do mundo, mas que ambos pagaram o preço de sua precocidade. Portugal é o estado moderno mais antigo do mundo e tem também as fronteiras estáveis mais antigas do mundo, se desconsiderarmos os 60 anos que ficou sob domínio espanhol entre 1580 e 1640. O Haiti, país constituído por ex-escravos, única revolução de escravos que triunfou em toda a história da humanidade, só poderia ser concebido enquanto nação e Estado no contexto dos ideais da modernidade revolucionária do século 18. Ao proclamarem a independência os generais haitianos deram o nome à nova pátria que os antigos nativos usavam para falar do país: Ayti, que quer dizer "bosque montanhoso".

Mas o preço pago pelo triunfo precoce, obtido em 1804 (o Haiti completa 200 anos, segundo país mais velho das Américas), foi alto. No mundo da Restauração, da Revolução Industrial, da Santa Aliança, do Brasil escravista, dos ensaios de transição do colonialismo para o imperialismo, um país de negros revolucionários era demais.

Mas não foi apenas por fatores externos que o Haiti, logo depois da vitória, entrou numa crise de que jamais sairia, embora eles fossem preponderantes. A revolução dos negros escravos, animados pelos ideais da Revolução Francesa, teve um dos mais extraordinários líderes que as Américas conheceram: Toussaint L'Ouverture, ex-escravo, culto, sofisticado, ilustrado, corajoso, ousado, pai de família extremoso, implacável com os inimigos mas bom negociador, general de capacidades notáveis. Mas Toussaint, que derrotou o exército francês, então o melhor do mundo, foi aprisionado por ordem de Napoleão. Para variar, foi pego à traição e levado para a Europa, onde morreu de frio e fome num cárcere nos Alpes, e isso no século das luzes!

Sem Toussaint, e com os burgueses da França pressionando para que nas colônias se restabelecesse a escravidão, lutando contra ingleses e espanhóis (estes dominavam o restante da ilha) os generais negros não tiveram alternativa senão a independência, que não estava em seus planos iniciais. Utopicamente, queriam ser cidadãos da França revolucionária que não os acolhia nem toleraria mais. O movimento pela independência, sem a liderança esclarecida de Toussaint, sectarizou-se. Houve uma perseguição implacável a todos os brancos e remanescentes das antigas administrações (que, diga-se de passagem, foram das mais cruéis das Américas).

O resultado foi que o país nascente viu-se sem quaisquer quadros administrativos. Pior: imitando seus antigos colonizadores, criou-se

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