Por Ricardo Zúniga García 19/06/2011 às 22:04
Ricardo Zúniga García é Professor nicaraguense e colaborador do Observatório das Nacionalidades
Após quase três meses de aplicação da resolução 1973, do Conselho de Segurança da ONU, que autorizou a criação de uma zona de exclusão aérea sobre o território líbio como suposta medida de proteção da população civil contra ataques do governo, revela-se clara a ilegalidade da intervenção, transformada em bombardeio indiscriminado ao país de Kadhafi, redundando em crescente número de vítimas civis e destruição de sua infraestrutura.
A história recente da Líbia é peculiar. Ao contrário de seus vizinhos, que viveram conflitos internos devido à aplicação de políticas neoliberais, o país não passava por processo de empobrecimento. Desde 1969, Kadhafi dera início a profundas mudanças econômicas e sociais, com ênfase para a nacionalização dos hidrocarbonetos, recuperação de terras cultiváveis, maiores investimentos em educação, saúde e produção alimentícia. Atualmente o governo líbio realiza um gigantesco projeto de levar águas subterrâneas de seu grande manto freático no sul até a zona povoada do litoral, transportando o líquido através do deserto, a uma distância de mais de 2000 km, para abastecer as cidades do norte do país.
A baixa integração entre as regiões do país dificultava os esforços para a elaboração de um projeto nacional que possibilitasse a convivência dos diferentes grupos organizados que integram sua população, o que não impediu que a Líbia conquistasse o título de maior índice de desenvolvimento humano (IDH) na África continental.
A invasão do Iraque pelos EUA em 2003 intimidou o governo líbio, levando-o a iniciar uma política de concessões às potencias ocidentais, com licitações parciais de exploração de petróleo e aceitação de planos do FMI, mesmo sem necessitar de empréstimos dessa instituição. Com esses gestos, Kadhafi confiava assegurar a não intervenção internacional e chegou a renunciar às armas de longo e médio alcance de que dispunha.
Tal mudança de rumo foi saudada como positiva pelos principais sócios da Otan e o líder líbio passou a ser recebido com honras protocolares em Paris, Roma, Londres e Madri, ao tempo em que recebia visitas dos principais chefes de Estado europeus. Uma semana antes da resolução da ONU, o governo líbio aparecia na página do FMI como modelo de abertura a investimentos.
Em face dessas circunstâncias, os EUA e as antigas potências coloniais europeias que hegemonizam a Otan, com o objetivo maior de se apropriar do petróleo líbio, retomaram à recorrente tática de satanizar Kadhafi como um ditador corrupto e anacrônico. Antecedendo a guerra real, iniciaram uma poderosa guerra midiática, em que se encobriu o fato de que não foi buscada nenhuma saída negociada para o conflito e que foram rechaçadas todas as propostas do governo líbio de pedir uma investigação independente das condições internas do país. Foram ignoradas propostas de mediação apresentadas pela Venezuela, com o respaldo de todos os países da Aliança Bolivariana, e até mesmo uma tíbia manifestação da União Africana em defesa da via pacífica para solução da crise.
O que de fato vem acontecendo na Líbia é a negação dos princípios constitutivos da ONU, na medida em que se excluiu a busca de saídas negociadas que evitassem ao máximo a perda de vidas e bens. No momento em que se iniciaram os bombardeios da Otan, o movimento rebelde estava reduzido a Benghasi. Sem programa político, liderança e unidade efetiva, os rebeldes estavam próximos da capitulação. A intervenção atua no sentido de alterar a correlação interna de forças, pois se o governo não tivesse sustentação na população não resistiria por tanto tempo aos ataques da poderosa Otan e se os rebeldes tivessem apoio da população que dizem representar, com muito menos ajuda já teriam conseguido derrotar as forças governamentais.
Como uma lição desse doloroso conflito fica evidente a necessidade de serem fortalecidos os mecanismos de integração entre os países da África, de forme a evitar o rompimento da ordem constitucional e a intervenção unilateral de países hegemônicos, como os EUA, sempre pressurosos de impor seus enganosos padrões de liberdade e democracia.