Háuma boa parte de intérpretes de nossa situação atual que concorda com a tese deque depois de um período fortemente neoliberal o que vivemos hoje é uma faseneodesenvolvimentista que retoma as bases do que Vargas e Juscelino em seusmomentos específicos haviam construído. O elemento central aqui como nos doismodelos anteriores é o papel do Estado como indutor do crescimento econômico. Oque especifica nosso caso é que se trata de um Estado que garante ainfra-estrutura para montar as cadeias produtivas do capital privado.
Oparadigma que aqui está em jogo se revela com muita clareza num de seusmomentos privilegiados: a forma agressiva com que se avança na direção daconquista para o sistema econômico vigente de uma das últimas fronteiras dopaís, a Amazônia legal. O ciclo desenvolvimentista atual na Amazônia é marcadopor um aumento considerável de violência e de impactos ambientais e sociais.Cientistas, ministério público, ONGs nacionais e internacionais, movimentossociais e igrejas têm questionado o projeto como economicamente gastador,socialmente desastroso e ambientalmente devastador.
Osgrandes projetos que se estabelecem na região são direcionados para asatisfação de interesses externos: por um lado, cresce exponencialmente aexportação de madeira, de soja, de carne, de ferro-gusa e alumínio, de modoespecial para países que não querem assumir em seus próprios territórios ospesados gastos socioambientais dessas atividades; por outro lado, e parapossibilitar essa lógica econômica, conta-se com a garantia de grandesinvestimentos estatais em projetos de infra-estrutura energética –hidrelétricas, apenas para a região da Grande Amazônia, o governo tem 19projetos de hidrelétricas – e de apoio logístico – rodovias e hidrovias. Essasgrandes obras implicam em grandes inundações de terras, em consideráveisdeslocamentos de pessoas e em enorme devastação ambiental.
Aregião se apresenta como a grande chance para a expansão do agronegócio – soja,etanol e pecuária. A floresta vem sendo substituída pelo pasto. Na raiz dodesmatamento incessante na região estão principalmente a pecuária e a soja. Aaprovação da MP 458, favorecendo a grilagem, e a aprovação agora, da reforma doCódigo Florestal, devem ser compreendidas nesse contexto. Elas são medidas quetornam a legislação ambienta flexível e ampliam a potencialidade de exploração.
Oresultado deste grande empreendimento é que a Amazônia legal foi transformadanuma grande plataforma de exportação de commodities. Para isto ela se tornouprioridade na expansão das fontes energéticas o que exige enormes investimentose impactos ambientais. Isto tem provocado muitas decisões governamentais einclusive mudanças de leis. Alarmado com a situação e inclusive com as mortesna região, o governo chegou a criar um gabinete de crise para enfrentar oproblema. São inúmeros os exemplos que podem ser apresentados: intensificaçãoda pecuária com subsídios do governo; aprovação da MP 452 (afrouxamento dasregras de licenciamento ambiental para intervenções de reparo, melhoria eduplicação das rodovias federais); alteração do Código florestal; asfaltamentoda BR-319 (Manaus x Porto Velho); enfraquecimento do IBAMA etc.
Opaís está perdendo porque não quer perceber que é um dos poucos países quepoderia oferecer ao mundo uma alternativa à crise civilizacional. Nestaperspectiva, subordinar a biodiversidade da região amazônica ao produtivismosem limites e às plataformas de exportação de commodities é uma opção quemerece no mínimo um grande debate nacional.