Algum tempo atrás, ninguém podia sequer pensar neste fato: O Liberal não ser mais o líder dos jornais. O Diário do Pará, autor do feito, porém, ameaça repetir os males para os quais devia ser a alternativa. Há um novo diário oficial na praça, em busca de seus interesses e do faturamento. Como antes.
Ninguém mais põe em dúvida que o Diário do Pará, do deputado federal Jader Barbalho, deslocou O Liberal, dos Maiorana, de uma liderança na qual a publicação se manteve durante três décadas, em vários momentos superando os 90% de índice de leitura. Nem mesmo O Liberal questiona essa nova e surpreendente situação. Ao contrário: a empresa vem recuando de posição, exposta a ficar num lugar cada vez mais distanciado do concorrente, algo inimaginável pouco tempo atrás.
A derrocada, que já era comentada nos bastidores, se tornou explícita quando O Liberal se desfiliou às pressas do Instituto Verificador de Circulação (IVC), em 2006, para não ser flagrado mais uma vez fraudando os números da sua tiragem, em queda vertical. Em seguida o jornal sofreu mais duas derrotas nesse front: foi obrigado pelo Conar, o conselho responsável pela auto-regulamentação da propaganda no Brasil, a não usar mais o título de "o maior jornal do Norte e Nordeste do Brasil" (o que, a rigor, nunca foi), e, agora, a também jogar fora a marca que passou a usar quando novamente pego na mentira: "o melhor jornal do Norte e Nordeste".
Outro golpe duro foi a perda da publicidade do maior anunciante privado do Estado, o grupo Y, Yamada. A Yamada se tornou a primeira empresa a reagir às imposições de veiculação dos Maiorana, que continuavam a cobrar por uma tabela de preços sem respaldo mercadológico e a interferir na mídia dos anunciantes para evitar a programação no concorrente. A Companhia Vale do Rio Doce, que é a maior empresa em atuação no Pará, embora sediada fora do seu território, tentou reagir e até ajuizou uma ação contra O Liberal, mas acabou recuando e compondo com os Maiorana. Os Yamada mantêm a decisão de excluir os veículos das Organizações Romulo Maiorana da sua propaganda, exceto em momentos excepcionais (o Círio de Nazaré e o Natal).
Nesse contexto, a constatação da realidade até dispensaria os números da apuração técnica. Na segunda-feira, qualquer observador verificará pilhas de exemplares remanescentes da edição dominical de O Liberal à espera de recolhimento, que geralmente tarda. Nas principais bancas da cidade, é comum haver de três a quatro pacotes, com mais de meio metro de altura, de encalhes do domingo, quando a circulação dos jornais dobra. Vários vendedores já pediram a redução da tiragem, mas a empresa não lhes dá atenção.
Esse é um mistério: por que O Liberal se permite suportar encalhes de mais de 60% da tiragem, jogando papel fora ou o vendendo para reciclagem, a preço que nem é de banana? Será para não ter que admitir uma circulação paga equivalente a um terço ou menos da que tinha na época de fastígio, quando era o único jornal do Pará - e um dos dois únicos da Amazônia - auditado pelo IVC, sinal de força e prestígio? É também para não admitir que a tendência à queda é constante, quem sabe, irremediável?
Há, agora, um mistério ainda maior do que esse: por que, mais de um ano depois de ter-se filiado ao IVC, o Diário do Pará não divulgou um único resultado de auditagem do instituto, uma das entidades de maior credibilidade no país? No dia 6 o jornal publicou mais uma pesquisa do Ibope, realizada no mês anterior, confirmando a existência e a expansão da sua liderança, que é inconteste. Fez rápida referência ao IVC, mas continuou silente sobre a aferição do instituto. O que estava em causa era a pesquisa do Ibope, mas ela sempre foi encarada com reservas pelo mercado de jornais impressos. Não por suspeita de manipulação ou coisa que o valha: simplesmente por ser inadequada aos fins pretendidos.