Por Celso Lungaretti (prosa) e Ana Helena Tavares (versos) - O que o mundo realmente celebra no Natal? A saga de um carpinteiro que trouxe esperança a pescadores e outras pessoas simples de um país subjugado ao maior império da época. Os primeiros cristãos eram triplamente injustiçados: economicamente, porque pobres; socialmente, porque insignificantes; e politicamente, porque tiranizados. Jesus Cristo nasceu três décadas depois da maior revolta de escravos enfrentada pelo Império Romano em toda a sua existência. Segue poesia - A porta do vizinho está aberta.
Spartacus era revolucionário e pregava a luta contra a escravidão; Jesus era místico e apostava numa transformação social pacífica. Leia também os versos inspirados pela mensagem fraterna do Natal.
O que o mundo realmente celebra no Natal? A saga de um carpinteiro que trouxe esperança a pescadores e outras pessoas simples de um país subjugado ao maior império da época.
Os primeiros cristãos eram triplamente injustiçados: economicamente, porque pobres; socialmente, porque insignificantes; e politicamente, porque tiranizados.
Jesus Cristo nasceu três décadas depois da maior revolta de escravos enfrentada pelo Império Romano em toda a sua existência.
As mais de seis mil cruzes fincadas ao longo da Via Ápia foram o desfecho da epopéia de Spartacus, que, à sua maneira rústica, acenou com a única possibilidade então existente de revitalização do império: o fim da escravidão. Roma ganharia novo impulso caso passasse a alicerçar-se sobre o trabalho de homens livres, não sobre a conquista e o chicote.
Vencido Spartacus, não havia mais quem encarnasse (ou pudesse encarnar) a promessa de igualdade na Terra.
Jesus Cristo a transferiu, portanto, para o plano místico: todos os seres humanos seriam iguais aos olhos de Deus, devendo receber a compensação por seus infortúnios num reino para além deste mundo.
Este foi o cristianismo das catacumbas: a resistência dos espíritos a uma realidade dilacerante, avivando o ideal da fraternidade entre os homens.
Hoje há enormes diferenças e uma grande semelhança com os tempos bíblicos: o império igualmente conseguiu neutralizar as forças que poderiam conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização.
A revolução é mais necessária do que nunca, mas inexiste uma classe capaz de assumi-la e concretizá-la, como o fez a burguesia, ao estabelecer o capitalismo; e como se supunha que o proletariado industrial fizesse, edificando o socialismo.
AS AMEAÇAS DE CATÁSTROFES E O FANTASMA DO RETROCESSO
O fantasma a nos assombrar é o do fim do Império Romano: ou seja, o de que tal impasse nos faça retroceder a um estágio há muito superado em nosso processo evolutivo.
O capitalismo hoje produz legiões de excluídos que fazem lembrar os bárbaros que deram fim a Roma; não só os que vivem na periferia do progresso, mas também os miseráveis existentes nos próprios países abastados, vítimas do desemprego crônico.
E as agressões ao meio ambiente, decorrentes da ganância exacerbada, estão atraindo sobre nós a fúria dos elementos, com conseqüências avassaladoras. Décadas de catástrofes serão o preço de nossa incúria.
No entanto, como disse o grande jornalista Alberto Dines, “criaturas e nações cometem muitos desatinos, mas na beira do abismo recuam e escolhem viver”.
Se a combinação do progresso material com a influência mesmerizante da indústria cultural tornou o capitalismo avançado praticamente imune ao pensamento crítico e à gestação/concretização de projetos alternativos de organização da vida econômica, política e social, tudo muda durante as grandes crises, quando abrem-se brechas para evoluções históricas diferentes.
Temos pela frente não só a contagem regressiva até que as contradições insolúveis do capitalismo acabem desembocando numa depressão tão terrível como a da década de 1930, como a sucessão de emergências e mazelas que decorrerão das alterações climáticas.
O sofrimento e a devastação serão infinitamente maiores se os homens enfrentarem desunidos esses desafios. Caso as nações e os indivíduos prósperos venham a priorizar a si próprios, voltando as costas aos excluídos, estes morrerão como moscas.
O desprendimento, substituindo a ganância; a cooperação, em lugar da competição; e a solidariedade, ao invés do egoísmo, terão de dar a tônica do comportamento humano nas próximas décadas, se as criaturas e nações escolherem viver.
E há sempre a esperança de que os mutirões criados ao sabor dos acontecimentos acabem apontando um novo caminho para os cidadãos, com a constatação de que, mobilizando-se e organizando-se para o bem comum, eles aproveitam muito melhor as suas próprias potencialidades e os recursos finitos do planeta.
Então, para além deste Natal mercantilizado, que se tornou a própria celebração do templo e de seus vendilhões, vislumbra-se a possibilidade de outro. O verdadeiro: o Natal cristão, dos explorados, dos humilhados e ofendidos.
Se frutificarem os esforços dos homens de boa vontade.
Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Preso e processado, escreveu o livro Naufrago da Utopia. Tem um ativo blog com esse mesmo título.É NOITE DE NATALE A PORTA DO VIZINHO ESTÁ ABERTA
Por Ana Helena Tavares
É noite de Natal. A porta do vizinho está aberta.
Entrar? Desejar-lhe bons votos? Ficar no desejo?
Ah, tem a internet. Já desejei mil alegrias a milhares.
Alegrias quais? Sorri pra eles? Vi seus sorrisos?
A porta aberta e o coração inseguro. Pra que serve minha mão?
Pra bater em teclas ou apertar outras mãos?
Fogos lá fora. Ah, tem vídeo. Mas e o olhar?
O olhar brilhando ao se erguer pro céu? Não se compara.
É noite de reflexão. Um ano passou e pra que serviu?
Pra bater cabeça ou melhorá-la?
Porta aberta. Criança ranzinza. Ganhou presente e não gostou.
Quem não ganhou? O que sobrou?
Aquele que não tem porta. Nem pra abrir nem pra fechar.
Quem te ampara? O bom velhinho ou o nazareno?
O presente ou ausente? Ah, que ladainha…
A campainha! Mas a porta tá aberta. Pra que tocar? Vou entrar!
E se ele não gostar? (Ele, o dono).
Ih, fiquei com sono. Mas tem missa. Preguiça...
Não vou nunca, por que ir hoje? Não faz sentido.
O meu vestido. Aquele bonito. Vou usar. Mas por que só hoje?
Os outros dias não o merecem? O sol também nasceu.
A porta aberta. Entrar hoje. Depois virar a cara.
Não parece boa atitude.
Fiz o que pude. Felicitei a todos. Como curtiram!
Não me viram... É o novo mundo.
Mas nascerá outro. Paz, união, essas coisas bonitas?
Sim, as luzes piscam. Mas há algo por trás delas.
Novas janelas. É a promessa de todo o Natal.
Não era comida? Peru, rabanadas, bacalhau…
Isso é normal. A porta fechou. Ninguém entrou.
Não tem problema. O futuro se faz agora.
Vou abrir a porta.
Se já estivesse aberta não tinha graça. Feliz Natal, vizinho.
Vamos confraternizar nossas famílias. Ainda há vinho.
Ana Helena Tavares, jornalista, conhecida por seu site de jornalismo político Quem tem medo da democracia?, com artigos publicados no Observatório da Imprensa e na extinta revista eletrônica Médio Paraíba. Foi assessora de imprensa e repórter dos Sindicatos dos Policiais Civis e dos Vigilantes. Universitária, entrevistou numerosas pessoas que resistiram à ditadura e seus relatos (alguns reproduzidos na Carta Capital e Brasil de Fato) serão publicados brevemente num livro.Direto da Redaçãoé um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.
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