Rio de Janeiro, 01 de Abril de 2026

O não e o nada

Por Flávio Aguiar - Na quinta-feira encerrou-se a primeira série das entrevistas que o Jornal Nacional fez com os quatro candidatos à presidência da República mais citados na mídia. Foi surpresa o tom - comedido, mas firme e incisivo - dos entrevistadores William Bonner e Fátima Bernardes. (Leia Mais)

Segunda, 14 de Agosto de 2006 às 08:44, por: CdB

Na quinta-feira encerrou-se a primeira série das entrevistas que o Jornal Nacional fez com os quatro candidatos à presidência da República mais citados na mídia. Foi surpresa o tom - comedido, mas firme e incisivo - dos entrevistadores William Bonner e Fátima Bernardes.

O último foi o presidente Luís Inácio Lula da Silva, e li nos jornais que o tucanato comemorou discretamente o fato de que ele passou a maior parte do tempo tendo que dizer "não". Ou seja, não teria tido tempo de falar das realizações de seu governo em matéria de políticas sociais, por exemplo, mas teria passado toda a entrevista se defendendo das acusações que pesam contra o PT e o Planalto. Como toda meia verdade, esta faz mais estrago do que mentira completa. O fato é que Lula, apesar de nervoso e de ter se atrapalhado em alguns momentos trocando palavras, conseguiu passar uma mensagem consistente de que seu governo empenhou os mecanismos da justiça - ministério, Polícia Federal, corregedoria - nas investigações gerais no país, além de dar inteira liberdade ao Procurador Geral da República, função antes chamada, no governo anterior, de Engavetador Geral da República.

Também conseguiu passar uma imagem mais afirmativa nas sucessivas crises com dois de seus ministros - José Dirceu e Antonio Palocci - saindo do apenas "não sabia" para um mais incisivo "eu demiti". Além disso, e isso é evidente, reafirmou a percepção de que agora a Polícia Federal é que tem engavetado uma ampla gama de criminosos e acusados, sejam pobres, ricos, daqui, dali, Daslu, do governo, do setor privado, ou até dela mesma.

Numa palavra, deixou no ar a imagem de que as instituições controladoras do governo estão se transformando em instituições republicanas. Em poucas palavras, o presidente não foi tão bem quanto poderia, mas foi bem mais bem do que mal, porque conseguiu falar a partir de uma narrativa consistente, a de que em seu governo se investiga muito mais do que nos outros.

Cristóvam Buarque conseguiu o mérito de martelar uma idéia fixa, a da bandeira da educação. Como candidato não vai tão bem nas pesquisas, mas está conseguindo acrescentar à sua biografia uma campanha pela educação que não é de pouca monta. Foi firme mesmo quando apertado por perguntas em tom incômodo, sobre, por exemplo, se ele teria outras coisas de que falar... Firmou seu ponto, deixou seu traço: ainda que pequeno, indelével. A narrativa de uma batalha pela educação.

Heloísa Helena sacou da metralhadora giratória, atirou à esquerda, ao centro e à direita, e derrubou resistências, a começar pelas dos entrevistadores, que por vezes não conseguiram formular as perguntas. Mostrou estar mais preparada do que se pensava para este tipo de confronto, e marcou um ponto muito firme ao estabelecer distinção entre programa de partido e de governo. Em suma, conseguiu construir a narrativa de uma candidata que está amadurecendo, este foi seu ponto principal.

Já o candidato Geraldo Alckmin ficou na pré-narrativa. A situação ficou patética. Aconteceu que o candidato não esperava aquele comportamento por parte dos entrevistadores, e a narrativa que ele tinha em mente, se alguma havia, se desestruturou, e nada surgiu no seu lugar. Para usar um termo pós-moderno, Alckmin parecia falar de um não-lugar, de uma sem-narrativa, de que ele só se lembrasse de fragmentos.

Será que isso quer dizer algo a respeito do tucanato? Alckmin pertence a uma segunda geração tucana. A primeira, como diz um amigo meu, tinha laivos, se orgulhava de seus títulos de doutorado, citava em francês, e muitos deles carregam uma vaga lembrança de terem sido de esquerda alguma vez na vida, embora outros prefiram esquecer. Já esta segunda geração, que teve um up-grading com a vitória de Alckmin na disputa interna, é a dos pragmáticos administradores (ou construtores de presídios, que é o que se vê em São Paulo, com os resultados conhecidos), os do sem história, os do... sem-narrativa. Foi o que se

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